sexta-feira, 7 de março de 2008

A la recherche..


Todos os anos,pelos ultimos dias de agosto a azáfama repetia-se.Em casa dos meus avós mais parecia haver um incêndio,inundação ou catástrofe do género do que uns meros preparativos para irmos de férias.Meros não,porque na época levava-se quase tudo,ia-se e voltava-se passado um mês.Depois,lá seguíamos com o meu avô a comandar as tropas,os criados em alinho típico e a minha avó,expectante e receosa que alguma coisa tivesse ficado para trás.O primeiro dia era para arrumações,limpezas e demais actividades para que nada faltasse á prole.Depois..Férias!Eram tempos em que a praia era ainda mais medicinal do que lúdica,e em que o iodo do mar tinha uns benefícios quaisquer que me escapavam.As manhãs passavam-se invariavelmente a beira-mar,com os putos a chapinhar e os velhos,de calça arregaçada dando banho ás varizes.As tardes eram na Ria,enquanto os mais velhos iam entremeando conversa,cigarros e cafés no Guedes,á ganapada tanto dava para ir aos caranguejos com uma sardinha salgada como ir "andar de barco",porque de mergulhos estavamos conversados.Lá,davam-nos uma ideia muito básica do que era andar á vela e proporcionavam-nos tardes fantásticas.Sob o olhar atento de um homem de quem não me lembra o nome,qual "mãe ganso" olhando pelas crias,ele era ,sabíamos,a mão que nos ia buscar,caso a coisa não corresse como de esperado.Uns nos "lusitos",outros nos "cadetes",os mais espigadotes nos"snipes",por lá andávamos "cai daqui,levanta-te dacolá".E vinha o S.Paio da Torreira,com dezenas de moliceiros aconchegados na muralha,eram tempos em que se ia para o S.Paio,não se ia ao S.Paio.Quatro ou cinco dias de férias para as populações das redondezas,tal a devoção ao santo.Quatro ou cinco dias de "rusgas" na avenida,bebedeiras de proporções bíblicas e algum fogo de artifício.Depois,a anunciar o fim do verão,vinham as primeiras chuvas e tudo voltava ao seu estado primordial.Os dias cada vez mais curtos,o sol cada vez mais frio,e os mais velhos a marcar a data do regresso.Tomavam-se os ultimos banhos e faziam-se as ultimas pescarias porque o tempo escasseava.Regressávamos com a certeza de voltar.
foto-Joaquim Marques

3 comentários:

António Cândido disse...

É por causa destas coisas que não devemos esquecer o quanto devemos aos pais e avós, responsáveis pelo que ainda hoje fazemos.
Afinal, apesar de com outros requintes, continuamos com a mesma história. O S. Paio continua a ser a tal festa espectacular que nos ajuda a despedir do verão e querer que a primavera chegue rápido.
Está a chegar a época!

Um abraço,

AC

Ventura disse...

Belo texto meu caro amigo! Estamos a falar de identidade profunda, rituais que se consolidaram com a densidade que só o tempo permite.O teu blogue está ele também a ficar mais denso, com o tempo. Abraço.
H.

almagrande disse...

Hélder,obrigado pela visita,é um prazer ter-te a fazer uns "bordos" por aqui.
Abraço.
M.