sexta-feira, 21 de março de 2008

Cais da Ribeira

Sr.José,faz-me um Vouga?Disse-me que sim e que me iria fazer um desenho!Passados dois ou três dias presenteou-me com uma maquete á escala 1/10,dizendo-me;"...leve para casa,veja bem e ponha defeitos..."Assim fiz,passei um fim de semana a tentar encontrar pontos que não me agradassem tanto,tendo-a entregado como a tinha recebido."E mesmo isto sr.José,não mexa em nada...".Hoje,depois da obra feita,teria modificado um pormenor..erros na interpretação das escalas...
E faze-lo como,e com quê?A minha ideia inicial era ele ser construído em Cedro Brasileiro,cavernas em Freixo e rebitado a Cobre como era usual...trinta anos antes!
"nem diga uma coisa dessas que ainda nos mandam prender.."brincava o mestre Zé,"..eu já nem sei onde tenho o caldeiro..." infelizmente tinham deixado de fazer as cavernas dos barcos cozendo ao vapôr e vergando a madeira,que depois de seca e colocada no sitío,dava aos barcos uma rigidez estrutural óptima.Também tive que abandonar a ideia do Cedro porque depois de milhentos telefonemas e pesquisas na net,não conseguia arranjar mais do que meia dúzia de tábuas manhosas ou Cedro nacional cheio de nós.Optámos então por fazer toda a parte estrutural do barco em Carvalho Francês e o casco em Tola,que por serem mais fáceis de encontrar nos davam mais possibilidades de escolha.Nos pontos sujeitos a esforços mais violentos,utilizaram-se madeiras mais rijas,Carvalho,Cambala e Faia.No convés,para dar algum contraste e quebrar a monotonia da Tola usou-se Mogno.
Ao longo de quase nove meses corri para Pardilhó,quase diariamente,onde me deliciei com a qualidade do trabalho dos Mestres,quem conhece o sítio e as pessoas,sabe do que falo.Sessenta e muitos anos de experiência,de conhecimentos adquiridos,de paixão pelo bem feito,pelo pormenor e sobretudo pela qualidade de construção.Nove meses que ampliaram a minha admiração por estes homens que com ferramentas que muitos achariam arcaicas,continuam a fazer de um monte de tábuas,os sonhos de outros.

4 comentários:

jc disse...

O problema é que já há poucos como o Sr.José que de um monte de tábuas faz os sonhos dos outros...

almagrande disse...

Infelizmente são uma raça em extinção,os dois senhores têm 79 e 82 anos e não deixam sucessores.O panorama geral não é risonho..Em Estarreja já há uma rotunda enfeitada com bateiras de fibra de vidro!

joao veiga disse...

A estória da Guerra do Vietnam, com que linco este blog ao Ventosga, contá-la-ei um dia, porque é assaz curiosa e divertida.
Não leves a mal, mas os campos de Salreu e de Estarreja é isso que me lembram, a Guerra do Vietnam.

almagrande disse...

Sou cliente assíduo do seu blogue e dos links que lá estão e até pensei tratar-se de um erro qualquer..Não levei a mal e fiquei muito satisfeito que o tivesse colocado lá.obrigado.
Em relação a guerra do vietnam nos campos de Salreu..só me lembro da matança que costumavam fazer por lá e que alguns chamavam de caça aos patos..