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Ainda está escostada num canto qualquer da casa uma velha secretária que foi durante anos laboratório do meu pai, caçador convicto que, antes das facilidades posteriores, aí se sentava a carregar os tiros em vésperas de uma qualquer incursão, fosse pelas serranias do interior com o passo largo a perseguir as perdizes, pelas nossas milhãs atrás das codornas ou das levianas narcejas acocoradas nas terras frescas da Beira-Ria. Isto vem a propósito de um amigo me ter falado hoje da " Abertura Solene" do próximo domingo, a data por que todos os caçadores esperam. Esperam mais caça, por muito pouca que ela seja, e, a maior parte deles, os que podem dizer-se caçadores, saborear a perseguição, admirar o trabalho do cão e o culminar do acto final.
Porque eles me entravam pela porta, privei com alguns dos bons, com uma paixão e um respeito pelos bichos que abatiam e recordavam com um brilho juvenil nos relatos cuidados, plenos de pormenor, quase fazendo-nos cheirar a urze, a giesta e o agreste do penedo.
Fui um cão de caça de aptidões medianas, palmilhei uns quantos socalcos à procura das aves que, ou mortas ou agonizantes, esperavam o fim.
Qual Alma Grande do Torga, abreviava-lhes o sofrimento duma chumbada menos certeira, prendia-as na trela furando-lhes o bico, limpava as mãos do sangue quente e via a passarada apagar-se.
Por muito que goste de uma perdiz à moda do Convento de Alcântara, de uma Galinhola assada envolta da sua tripa ou de outros opíparos repastos, trocava o sabor de tais manjares pelo sabor de as vêr por aí.
2 comentários:
Ora estava eu deliciado a ler o teu texto e a sentir quanto me tocava no pêlo e cai-me o balde de água fria à conta da culinária. Homem, eu também aprecio comida mas, já o escrevi, antes gostaria de dar vida ao rato para o poder continuar a perseguir. Não posso e por isso prantei a abrir o meu livro No rasto da Memória estas palavras de Unamuno:De noche,noche nuestra madre/cuando a lo lejos el recuerdo ladre.Acho que sim, que talvez estejas entre os que podem apreciar Fausto José: que ele já só vai à caça por desfastio/por entrar na barca/por passar o rio...
O facto de eu ter participado algumas vezes dos prazeres de um dia de caça fazia-me encarar o acto gastronómico de uma forma que vai além do comer. Era quase um ritual, uma refeição com um sabor especial, sobretudo para quem lá tinha andado.
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