quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

"Veronique"



Dispensa apresentações para a maioria e é um dos desenhos mais bonitos da Ria. Tem uma silhueta inconfundível, carisma e uma história fora do comum. Como admirador do "Veronique", pedi ao Comandante João Veiga que me escrevesse umas palavras sobre ele. A ele o meu agradecimento e aos autores das fotografias, um pedido de desculpas pela usurpação e manipulação das mesmas.

" O estaleiro naval do mestre Alberto, praticamente dentro da cidade de Aveiro, ganhou fama mundial pela qualidade dos seus trabalhos. Ainda há muito pouco tempo recuperou a nau "D.Fernando e Glória", construída em Goa e destruída por um incêndio nos anos sessenta. Esta fama mundial que granjeou fez acorrer aos seus estaleiros veleiros de todo o mundo, de iates e também de vagabundos do mar, homens de grande experiência e conhecimento, de uma riqueza cultural que dá gosto beber nas longas conversas das tertúlias que tenho o prazer de participar. Destes destaco dois sexagenários, o inglês Andrew e o alemão Georg.

O inglês naufragou à entrada da nossa barra há três anos. Nesse naufrágio perdeu a mulher que não resistiu ao Mar alteroso e a um braço engessado que a arrastou para o fundo do Mar. Depois do naufrágio foi ficando por cá, habita no seu tri-Maran semi destruído que ele recupera aos poucos para continuar as suas sagas marítimas à volta dos sete mares.

O Georg, um pouco mais velho, veio reparar o seu 36 pés de ferro, foi também ficando, esperando a melhoria do estado do Mar, tertuliando com os velhos marinheiros que por aquele estaleiro aparecem todos os dias e fazendo pequenos trabalhos para o Mestre Alberto.




Quando terminou a reparação do seu veleiro, retirou-o da carreira e amarrou-o a um velho arrastão azul que esperava ser desmantelado para a sucata. Já lá estava há uns meses e chamava a atenção pelas linhas esbeltas que ostentava. A meio de uma semana de Janeiro do ano passado os dois Marinheiros resolveram vir à cidade beber um copo num dos bares de gente do Mar que por aqui existem. Ao passar do portaló do barco onde estava amarrado, Georg escorregou e caiu. Transportado para o Hospital, diagnosticou-se fractura da coluna que o manteria na cadeira de rodas para o resto da vida. No domingo a seguir faleceu.

O resto juro que é verdade, eu assisti. Por volta das sete da tarde desse domingo, sem ponta de vento ou barco a levantar as águas da ria, o veleiro do Georg agitou-se estranhamente e as adriças bateram no mastro de alumínio de forma compassada e gritante, lembrando sinos a tocar sinais pela morte de alguém, como é hábito nas nossas aldeias.




Eu estava presente com um amigo e fomos ver o que se estava a passar e nada descobrimos. Na altura não demos ao facto outra importância que não fosse a da curiosidade e estranheza pelo que não sabíamos explicar.

Na segunda-feira seguinte, tivemos a notícia que Georg tinha morrido em Coimbra pouco depois das sete da tarde, a hora a que o Veronique se agitou, sentindo a morte do seu dono.

O Veronique é um sloop de linhas clássicas com a proa em meia lua a lembrar os lugres do estaleiro do Mestre Mónica.

Quis o destino que me tornasse proprietário desse magnífico barco e, mais do que isso, Amigo do Udo Postfcher, filho do Georg que tanto amava aquele barco que era a sua casa.

O Veronique já ostenta o pavilhão da Quinas, mas chamar-se-á sempre Veronique."

João Madail Veiga - (10-Jan-2001)

7 comentários:

Laurus nobilis disse...

Somente escrever...
Gostei Muito!

jc disse...

Eu também adorei.

João Manuel Rodrigues disse...

A primeira vez que o Veiga me contou esta história arrepiei-me todo quando a conto, quem a ouve arrepia-se.
Sou daqueles que tem a felicidade de navegar no NVV Veronique e claro com o meu colega João Veiga.

João Manuel Rodrigues
(P.A.M.)

Conde disse...

Já conhecia esta historia pelo João, toda ela é de arrepiar.

Eugénio disse...

O João está mesmo nas termas... distraído....nem comenta este post...
bom retoque de p&b nas fotos, o Veronique fica mais distinto e mais "vintage"

joao madail veiga disse...

Como é que querem que eu comente este texto? Com o meu habitual estilo chorraqueiro e diga que'..eu próprio não faria melhor...', ou, ao contrário, vestir uma pele que muitas vezes não me cai bem, e diga:
'...
materialista convicto, estava no estaleiro do mestre Alberto nessa tarde de domingo do ano 2000.
Morava na época na Praia da Barra e tinha vindo trazer o meu João ao comboio, ia o miudo para o Porto.
No regresso parei no estaleiro, um amigo meu estava lá a 'fazer serão', o que viria a ser o veleiro do Piaget tinha de estar pronto para a viagem ao Brasil desse ano.
E foi entre dois dedos de conversa naquela tarde fria de Janeiro que ouvimos o som caracteristico das adriças a bater no mastro do veronique, que estava então amarrado ao arrastão Manuela Cação, a ser desmantelado.
O resto da história está escrita a cima.
E prontes....

joao madail veiga disse...

CORRECÇÃO:
Um Amigo meu de infância, ao ler este comentário e o meu post, teve a amabilidade de me telefonar e informar que o navio azul onde o Veronique estava atracado era o ANTÓNIO CAÇÃO, ex VAZ, navio de pesca por redes de emmalhar.
Aqui fica a correcção e o agradecimento ao Comandante João David.