quinta-feira, 6 de maio de 2010

"Campinos e Ílhavos"


--'Então agora como é de fôrça, quero eu saber, e estes senhores que digam, qual é que tem mais fôrça, se é um toiro ou se é o mar'.
--'Essa agora!..'
--'Queriamos saber'.
--'É o mar'.
--'Pois nós que brigâmos com o mar, oito e dez dias a fio n'uma tormenta, de Aveiro a Lisboa, e estes que brigam uma tarde com um toiro, qual é que tem mais fôrça?'
Os campinos ficaram cabisbaixos; o publico imparcial applaudiu por ésta vez a opposição, e o Vouga triumphou do Tejo.


Tenho seguido por estes dias os relatos de dois distintos membros do grupo de forcados amadores de Alhandra, vieram visitar a Ria e levaram, pelo que se pode ler, boas recordações. Lembrei-me do inverso, das minhas recordações de estadias no Ribatejo, de férias, à solta por aquelas várzeas amarelecidas no estio de Julho ou Agosto.
Pernoitava numa casa centenária de capa de revista, à entrada de Lisboa e resguardada de quem passava por muros altos e árvores imponentes. O conforto e o bom tratamento imperavam, boa cozinha e mordomias que me faziam sentir em casa.
O meu anfitrião, homem rijo e de poucas falas, fazia-me sentir à vontade e aturava as perguntas que lhe ia fazendo sobre cavalos e toiros, excêntrico e com uns olhos azuis quase transparentes que faziam transparecer uma certa dose de loucura latente.
Os dias eram passados numa herdade ali para os lados de Porto Alto, 600 ou 700 ha de recreio pra um puto que adorava aquilo, cavalos, vida ao ar livre, espaço, liberdade e a possibilidade de alguma aventura. Entregaram-me um cavalo velho, como convém a cavaleiro novo, e a única regra imposta era a de fechar cada portal que abrisse. Passava horas a deambular sozinho pela herdade, ajudava os campinos no maneio do gado, almoçava com eles uma sardinha assada, uma fatia de torricado e uma talhada de melão, vigiava-se o gado e até tive que aprender a dormir a sesta. A minha montada, o "Branquinho", que nos seus anos áureos fora o cavalo de correr lebres da senhora da casa, com a idade fora relegado para o trabalho diário, aguentava os meus excessos com uma pachorra de assinalar. Todo ele era calmo, poupado nos esforços, cada dia que passava gostava mais dele. Entrava nas tapadas onde pastavam os toiros bravos com uma calma só alterada quando eu queria mais proximidade com os bichos pretos, aí ele acordava, levantava a cabeça um bocado mais, parecia que rejuvenescia alguns anos. Avançava a custo, de orelha guiada, mas até um certo limite em que se recusava a dar mais um passo que fosse, ele lá sabia dos seus limites de cavalo velho. Se tivesse que fugir já lhe faltavam as pernas, três ou quatro cicatrizes mal curadas na garupa explicavam o comportamento.
Houve um dia que chegou um contrato de Espanha para uma corrida, onde os "Palhas" eram conhecidos pelo "Horror, Terror y Furor". Era preciso escolher escolher sete dum lote de vinte e tal toiros de quatro anos. Lá fui com o "Branquinho", junto com o resto dos campinos, muito, mas muito lentamente, juntando os bois até que eles ficaram agrupados num canto duma cerca, e a única coisa que me lembro até hoje é da tremedeira que sentia, a minha e a do "Branquinho", que tremia mais do que eu. A dois passos de nós, os toiros de olhar negro inexpressivo, amontoados como ninho de vespas metiam muito respeito. Se um resolvesse investir não haveria hipótese de fuga, pelo menos para mim. Muito calmamente, um a um, foram sendo escolhidos e separados. Naquele dia não houve nem cavalos nem cavaleiros furados mas pra mim nesse dia o Tejo "triumphou" sobre o Vouga.

7 comentários:

João Manuel Rodrigues disse...

O Tejo é o maior rio Ibérico, berço do Tenebroso Mar da Palha, onde nascem temiveis vagas e daí partem para todo o grande mar oceano.

João (Prático do Tenebroso Mar da Palha)

Pedro disse...

História bonita esta, e por ser de uma lembrança do Tejo, digna de constar nesta página geralmente de poucas falas e imagens bonitas.

Fez lembrar-me de uma vez que, tendo a Secção de Vela comprado dois motores fora de bordo novinhos em peça (já de si uma efeméride), me calhou fazer-lhes a rodagem durante as férias do Verão. Estava como queria: Barco motor e gasolina à descrição e como única instrução o ter de manter regimes certos de rotação durante períodos de tempo relativamente grandes, o que significava que poderia percorrer muitas milhas de Rio à borla e para onde muito bem entendesse.

Certo dia decidi embarcar a bucha comigo e ir almoçar ao bico do Malagueiro, à entrada da Vala de Benavente. Lá chegado encalhei o semi-rígido (a maré vazava), acendi a fogueira, demorei-me a almoçar e deixando o barco ficar a seco distante uns 20 metros da água da maré que, entretanto, vazou, decidi subir o combro e ver o que se passava para lá da praia.

Já se imagina não é? Uma manada de toiros bravos de um lado, um semi rígido de 200Kg no outro e no meio um puto de 17 anos em calções de banho...

Não houve novidade. Os bixos preferiram arribar para a sombra dos chorões e eu, borrado de medo que eles mudassem de ideias, lá esperei com água pela cintura até a maré subir e me boiar o barco outra vez...

Enfim, o Mar é sem dúvida mais forte mas podemos contar com a sua força previsível. No entanto o Rio, aos olhos calmo e bonançoso, também sabe meter-nos medo da sua maneira traiçoeira, ai não que não sabe...

Um abraço! E obrigado pela história

almagrande disse...

Um abraço prós Amadores de Alhandra. Bons ventos e boas navegações

h ventura disse...

Marco,
Esta história mistura as águas do Tejo e do Vouga numa dimensão sem escala, mas com inúmeras referências, que só quem as vive possui. E também fiquei a saber onde nascem as ondas! Nunca se saberá quem tem mais força, se o mar se os toiros, se os marinheiros se os forcados, mas vale bem a pena ir pensando sobre as diferentes culturas que compõem a nossa identidade. Nestes tempos de crises e de investimento para aqui TGV para acolá, nunca ouvi falar de investumento na cultura... Embora algumas vozes vão falando dos milhões que as indústrias culturais e criativas produzem. Vejam a chacota pouco esclarecida sobre o discurso de Cavaco Silva, ao falar da criatividade e do Mar... Esse ente sempre incompreendido entre nós, por paradoxal que pareça.

Marieke disse...

História muito interessante...sempre bonita de se reler..
Quando aparece do ladode cá da Ria?
Um abraço
Marieke

almagrande disse...

Olá Marieke, era quase tudo novidade pra mim e adorei as temporadas que passei lá no Ribatejo. Há uns dias não pude aceitar o convite do Comandante, com muita pena minha, mas os dias agora começam a ficar mais convidativos a umas passeatas. Qualquer dia faço uma visita ao Veronique, com muito prazer.
Um abraço
Marco

Proa disse...

Pois é...... de cavalos sabes mais que poucos...os tais que julgam saber muito.
adorei o texto e fazias o que bem ainda sabes, lidar com os bichos!!!

um abraço:
Proa