domingo, 17 de janeiro de 2010

"Mulheres do meu país"










Fotografias de António Cravo

"Mar Largo"


ò mar largo, ò mar largo
ò mar largo sem ter fundo
mais vale andar no mar largo
que nas bocas do mundo.

Cantiga popular - contribuição de Sérgio Paulo Silva

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"Arqueologias"






A última fotografia do post anterior já andava por aqui há algum tempo, sempre gostei muito dela. Mostra um barco de linhas superiormente desenhadas, de uma elegância fora do comum e que deve dar imenso prazer a tripular. Procurei e encontrei mais duas do mesmo barco e uma terceira de um outro da mesma classe, originária do norte da Europa.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

"Vintage Sailing"





"Costa Nova"


"Há a praia da minha infância, em Espinho, quando era mais pequeno, e a da minha adolescência mais profunda, na Costa Nova, dos 14/15 anos, dos primeiros amores, era eu campeão de natação e gostava era de andar na Ria, à vela ou à pesca. Lembro-me bem do cheiro da Ria...essa é a praia das praias. Mas, nos anos 1980, descobri a Foz do Arelho, mais selvagem, em estado puro, um sítio onde podia pescar robalos à vontade. Gosto muito do Atlântico,do cheiro do Atlântico - lembro-me que quando estava exilado em Paris, ia até Biarritz só para sentir o cheiro do mar. Gosto das águas fortes e lá ouve-se o silêncio e a música do mar. E ainda vou, na Primavera, no Outono e no Inverno...Tenho muitos poemas escritos ali. E da minha varanda vêem-se Peniche e as Berlengas. E às vezes, só a neblina."
Manuel Alegre in Visão de 9-7-2009

sábado, 9 de janeiro de 2010

"Les Nuits"


Nos dias menos bons, talvez alguns de setembro ou outubro, saio para uma volta que se adivinha sem história, só o vento vago de oeste a querer virar pra sul. E vai virando, o vento bate-nos pelas ventas e arrependemo-nos de ter tirado férias naquela semana. Não tarda que os ameaços o deixem de o ser e comece a cair uma chuva esparsa, grossa, fria. Se há coisa que mexe é andar na água com um céu de chumbo, sem saber bem o que nos espera, mas é um espectáculo único.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

"God is in the details"







"Arte de Velejar"


"A arte de velejar é o desporto náutico mais são, mais próprio e mais fecundo em imprevistos e emoções que o mar oferece ao homem.
Não visa, em especial, ao robustecimento muscular, mas, em virtude do meio onde se pratica, contribue para desenvolver o físico do indivíduo.
Permite, igualmente, desenvolver a iniciativa e a decisão a um grau que a maioria dos desportos não conhece, exige da parte de quem o pratica uma boa dose de confiança em si mesmo, a par de um agudo sentimento de responsabilidade.
As situações imprevistas, em que a serenidade e decisão são tão necessárias para as enfrentar, como a rapidez e segurança para as resolver, dão ao velejador uma têmpera especial. Os casos complicados e as rascadas requerem tanto de reflecção madura como de prontidão na decisão.
O nauta aprende,assim, em contacto com os elementos, a contar só consigo para resolver as dificuldades.
Este desporto aviva e anima o espírito de observação e o golpe de vista em apreciar ràpidamente as situações. Muitas vezes, a segurança do barco e das vidas depende de uma simples rajada mal estimada ou duma manobra tardia ou executada atabalhoadamente.
O velejador, entre este meio especial e a Natureza, desenvolve a atenção concentrada e inteligente.
O desporto náutico cria-lhe pouco a pouco uma mentalidade nova e permite-lhe desenvolver e melhorar as qualidades de iniciativa, desembaraço e perseverança.
É pois, o desporto ideal que, como nenhum outro, prepara o indivíduo para a luta pela vida."
Condensado do livro « Arte de Velejar »

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

"Veronique"



Dispensa apresentações para a maioria e é um dos desenhos mais bonitos da Ria. Tem uma silhueta inconfundível, carisma e uma história fora do comum. Como admirador do "Veronique", pedi ao Comandante João Veiga que me escrevesse umas palavras sobre ele. A ele o meu agradecimento e aos autores das fotografias, um pedido de desculpas pela usurpação e manipulação das mesmas.

" O estaleiro naval do mestre Alberto, praticamente dentro da cidade de Aveiro, ganhou fama mundial pela qualidade dos seus trabalhos. Ainda há muito pouco tempo recuperou a nau "D.Fernando e Glória", construída em Goa e destruída por um incêndio nos anos sessenta. Esta fama mundial que granjeou fez acorrer aos seus estaleiros veleiros de todo o mundo, de iates e também de vagabundos do mar, homens de grande experiência e conhecimento, de uma riqueza cultural que dá gosto beber nas longas conversas das tertúlias que tenho o prazer de participar. Destes destaco dois sexagenários, o inglês Andrew e o alemão Georg.

O inglês naufragou à entrada da nossa barra há três anos. Nesse naufrágio perdeu a mulher que não resistiu ao Mar alteroso e a um braço engessado que a arrastou para o fundo do Mar. Depois do naufrágio foi ficando por cá, habita no seu tri-Maran semi destruído que ele recupera aos poucos para continuar as suas sagas marítimas à volta dos sete mares.

O Georg, um pouco mais velho, veio reparar o seu 36 pés de ferro, foi também ficando, esperando a melhoria do estado do Mar, tertuliando com os velhos marinheiros que por aquele estaleiro aparecem todos os dias e fazendo pequenos trabalhos para o Mestre Alberto.




Quando terminou a reparação do seu veleiro, retirou-o da carreira e amarrou-o a um velho arrastão azul que esperava ser desmantelado para a sucata. Já lá estava há uns meses e chamava a atenção pelas linhas esbeltas que ostentava. A meio de uma semana de Janeiro do ano passado os dois Marinheiros resolveram vir à cidade beber um copo num dos bares de gente do Mar que por aqui existem. Ao passar do portaló do barco onde estava amarrado, Georg escorregou e caiu. Transportado para o Hospital, diagnosticou-se fractura da coluna que o manteria na cadeira de rodas para o resto da vida. No domingo a seguir faleceu.

O resto juro que é verdade, eu assisti. Por volta das sete da tarde desse domingo, sem ponta de vento ou barco a levantar as águas da ria, o veleiro do Georg agitou-se estranhamente e as adriças bateram no mastro de alumínio de forma compassada e gritante, lembrando sinos a tocar sinais pela morte de alguém, como é hábito nas nossas aldeias.




Eu estava presente com um amigo e fomos ver o que se estava a passar e nada descobrimos. Na altura não demos ao facto outra importância que não fosse a da curiosidade e estranheza pelo que não sabíamos explicar.

Na segunda-feira seguinte, tivemos a notícia que Georg tinha morrido em Coimbra pouco depois das sete da tarde, a hora a que o Veronique se agitou, sentindo a morte do seu dono.

O Veronique é um sloop de linhas clássicas com a proa em meia lua a lembrar os lugres do estaleiro do Mestre Mónica.

Quis o destino que me tornasse proprietário desse magnífico barco e, mais do que isso, Amigo do Udo Postfcher, filho do Georg que tanto amava aquele barco que era a sua casa.

O Veronique já ostenta o pavilhão da Quinas, mas chamar-se-á sempre Veronique."

João Madail Veiga - (10-Jan-2001)

"Kurt Arrigo"

















segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

"Spray"



"Mas o nosso barquito atravessou a rebentação como um peixe - como se fora parte natural dos elementos, e tão livre como eles!
De todos os mares que quebravam furiosamente ao redor dele, mantendo-o por vezes, quase a prumo, nem um só o varreu, nem sequer lhe entrou a bordo, e o barco atravessou triunfante aquela tempestade de escarcéus. Depois, metendo em cheio, abriu as velas ávidas de vento e voou por sobre o mar como uma ave."
Joshua Slocum in Sózinho à Volta do Mundo

domingo, 3 de janeiro de 2010

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

"Outras Águas"







Pinturas de Ran Ortner
Contributo de J.M.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

"Bons Ventos"



E vós, ó coisas navais, meus velhos brinquedos de sonho!
Componde fora de mim a minha vida interior!
Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens,
Chaminés de vapores, hélices, gáveas, flâmulas,
Galdropes, escotilhas, caldeiras, coletores, válvulas;
Caí por mim dentro em montão, em monte,
Como o conteúdo confuso de uma gaveta despejada no chão!
Sede vós o tesouro da minha avareza febril,
Sede vós os frutos da árvore da minha imaginação,
Tema de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligência,
Vosso seja o laço que me une ao exterior pela estética,
Fornecei-me metáforas imagens, literatura,
Porque em real verdade, a sério, literalmente,
Minhas sensações são um barco de quilha pro ar,
Minha imaginação uma ancora meio submersa,
Minha ânsia um remo partido,
E a tessitura dos meus nervos uma rede a secar na praia!

Excerto da Ode Marítima de Álvaro de Campos

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

"Navegar é preciso"


Boas Festas e que o próximo ano seja pródigo em grandes dias passados a bordo, de grandes ou pequenos, amadeirados, plastificados ou até oxidados. Com ou sem cozinha e adega, mais ou menos bonitos e performantes, o fundamental para a maioria que faz vela é estar lá, na água.
Bons Ventos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

"Yachtmen"



"Um marinheiro, para o profano, é aquele a quem a profissão obriga a viver no mar. Erro! Erro crasso! Um marinheiro é aquele a quem o seu gosto faz viver com o mar. Só os que navegam por prazer estão neste caso. Sempre.
Desprezados pelos seus colegas das outras marinhas? Claro! Mas os operários desprezam os «sonhadores» e, no entanto, os «sonhadores» transformam mais a humanidade que o mais hábil artesão.
Os marinheiros da quarta marinha não devem, aliás, inquietar-se com o que se pensa deles. Quis uma fatalidade que ainda mal acabada de nascer (a navegação de recreio conta, em decénios, o que as outras contam em séculos), recebesse a mais esmagadora herança, que conserva sózinha: a civilização milenária da vela, a frequência do mar «rasando a água»."

Eric de Bisschop

domingo, 13 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

"Ribeira da Aldeia"


Sempre que posso gosto de passar pela Ribeira da Aldeia, fica-me perto de casa e do local de trabalho. Muitas vezes saio do trabalho e vou até lá, tenho a Ria ali ao lado e o estaleiro dos Mestres carpinteiros que me fizeram o Almagrande, sou a terceira geração pra quem eles construiram barcos. É um oásis de calmaria, um sítio que parece ter parado no tempo e, para além da admiração que tenho por eles como profissionais, há uma amizade que me faz passar por lá a vê-los, a saber se estão rijos e às vezes conversar um bocado.
Sempre têm pachorra para ir respondendo às minhas perguntas, sejam elas relacionadas com a construção naval, com estórias de barcos e homens que foram passando por lá ou até dos seus próprios percursos de vida. Por vezes não há conversa, só trabalho, e fico por ali a observá-los em silêncio, um silêncio quebrado apenas pelo assobio do Mestre Zé que mais parece o vento Norte a entrar por uma frincha do esburacado armazém.
Hoje a tarde estava bonita e pensei em fazer-lhes a visita habitual mas ao chegar dei com o estaleiro fechado, voltei para trás e parei no centro para um café, afixado na parede da entrada um papelucho anunciava a morte do Mestre Diniz.
Morreu com 84 anos, uma vida dedicada aos barcos, primeiro aos moliceiros e bateiras e depois a outros de utilização mais desportiva ou de lazer.
Vou ter saudades dele mas como me dizia hoje o Mestre Zé, com a voz embargada por sessenta anos de vivências em conjunto, "É assim a vida...".

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

"Vouguices"



Saudades da água, saudades do mar. O barco espera melhores dias, vai esperando e juntando pó no costado. Passa-se a semana a pensar num fim-de-semana soalheiro que dê para dois ou três bordos a arejar os paneiros e a desempoeirar os bolores dos panos e não há meio..
Os passeios pela beira da Ria matam algumas saudades, mas não as da bolina mansa em que ele, risonho, risca a água num silêncio que os Vouguistas conhecem. Os Vouguistas e os outros, fundamendalismos à parte, navegar na ria é especial.
A Ria é temperamental e pouco complacente com quem não a conhece.
Diferenças à parte, não deixem morrer este barco fantástico.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

"Kon-Tiki"

"Decorreram semanas. Não vimos sinal algum nem de navio nem de qualquer outra coisa que vogasse, para nos mostrar que havia mais gente no Mundo. O oceano inteiro pertencia-nos e, com todas as portas do horizonte abertas, uma paz real e a verdadeira liberdade desceram do firmamento sobre nós. Era como se o gosto fresco de sal que havia no ar e a imensa pureza azul que nos rodeava nos tivesse lavado o corpo e purificado a alma. A nós, sobre aquela jangada, os grandes problemas do homem civilizado afiguravam-se falsos e ilusórios, meros produtos pervertidos do espírito humano. Só os elementos se revestiam de importância. E os elementos pareciam não fazer caso da pequena jangada. Ou talvez a estivessem aceitando como um objecto natural que não quebrava a harmonia do mar, mas que se adaptava à corrente e ao oceano como a ave e o peixe. Em vez de se mostrarem um inimigo temível, investindo comnosco a espumar, os elementos haviam-se tornado num amigo fiel que, com firmeza e segurança nos ajudava a avançar. Enquanto o vento e as ondas empurravam e impeliam, a corrente oceânica permanecia debaixo de nós e puxava-nos sempre para o rumo da nossa meta."

Thor Heyerdahl in A expedição da Kon-Tiki

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

"Pátria"

Soube a definição na minha infância,
Mas perdi a memória
Das coisas que só tinham importância
Ditas a palmatória.
Hoje
Sei apenas gostar
Duma nesga de terra
Debruada de mar.
.
Miguel Torga