sábado, 30 de janeiro de 2010

"Roubalheira"



Há uns poucos de dias num dos blogues linkados aqui ao lado houve um imbróglio por falta de pagamento de royalties duma fantástica fotografia de um belíssimo exemplar nadante, fotografado de maneira sublime e reveladora dos dotes superiores do artista. Aderi recentemente ao Facebook e ao navegar entre os milhares de amigos à mão de semear, encontro estas fotografias, que apenas dirão alguma coisa a muito poucos.
Como conhecia quem as tinha posto, entrei em contacto com o herdeiro dos negativos, pedi-lhe autorização para as pôr aqui e se dúvida houvesse que poria sempre a autoria das mesmas.
O mail chegou algum tempo depois, negando-me tal vontade, e as fotos ficaram por aí.
Como eu partilho daquela premissa inicial de que a Net seria o sítio livre em absoluto, de troca de ideias, de conhecimento, de cultura, de ideias entre culturas, a publicação de algo que está na net não pode estar sujeita aos caprichos de seres egocêntricos.
Este blogue podia chamar-se "Roubar é preciso", porque não tenho feito outra coisa senão roubar as imagens e as palavras dos outros e não o entendo como um roubo, vejo-o como momentos de partilha com pessoas que julgo parecidas comigo.
Sendo assim, as fotografias ficam aqui, um ou dois dias e a seguir apagam-se, cumpre-se o desejo de quem as quer mostrar e de quem não.
P.S.- Espero que não tenha vindo mal ao mundo por ter publicado as malfadadas fotos, no seu lugar fica o vazio de um quadro de Malevich - White on White.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

"Earl grey"






A Ria cinzentona.

"Britannia"










Construído em 1893 por G.L.Watson, por encomenda de S.A.R. Edward VII, teve uma vida desportiva brilhante, em 40 anos de regatas venceu 231, tendo inclusivamente vencido o "Vigilant", vencedor da America's cup em 1893. A par da brilhante carreira na Europa, serve como barco de treino do "Shamrock I" de Lipton, desafiante da Taça. Já com GeorgeV o barco ganha novo alento, nova armação e volta às vitórias. Os anos pesam e os novos Classe J, fazem valer os seus créditos, a época do "Britannia" tinha passado. Quando George V morre tem como desejo que o "Britannia" o acompanhe. No dia 9 de Julho de 1936, o barco é afundado a sul da ilha de Wight.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

"The Last of Tall Ships"












Fotografias de Alan Villiers a bordo do "Parma" - 1932-33

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

"O Chegado"


"Domingo, 8 de Novembro.
Combinamos encontro no Cais do Chegado para ir às narcejas. O Zé Maria não quiz ir e arranjou qualquer desculpa esfarrapada. Teve medo da chuva ou que a canoa fosse ao fundo.
De dia o Chegado é um dos derradeiros paraísos da Ria de Aveiro onde o vandalismo disfarçado, de progresso, ainda não assentou arraiais. Vou lá muitas vezes, ao cair da tarde, só para ver o vento.
Não sei se algum deles adormeceu ou se fui eu que me enganei nas horas.
Cheguei antes deles, noite cerrada e tive que esperar bastante. Não havia ninguem a não ser os barcos amarrados aos moirões. Apesar de tão ermo, não era assustador.
Deixei-me estar a ouvir a água marulhar e toda a sinfonia da passarada que por aqui vive, ou por aqui passa, os borrelhos, os maçaricos, as galinhas d'água, as corujas douradas.
Entretanto a claridade começou a vencer as trevas, nos recortes distantes do Caramulo e eles, finalmente, apareceram.
O dia esteve sempre cinzento e, por momentos, chegou a chover. Apesar de não ser propulsionada por um motor potente, a deslocação da canoa fazia-nos tiritar.
Vimos dois gansos voando pachorrentamente, a grande altura, talvez chegando, talvez partindo porque sempre foram raros os que por aqui se demoraram mais que um punhado de dias. Estes braços da Ria com os seus terrenos pantanosos, foram sempre uma Estrada de Santiago de todos estes peregrinos."
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Sérgio Paulo Silva in Com um bornal roto às costas
foto. - Zacarias da Mata

domingo, 24 de janeiro de 2010

"Cais do Chegado"




Passeio pela beira Ria em tarde soalheira e fresca, a nascente do Bico da Murtosa e nas imediações do Cais do Chegado.

sábado, 23 de janeiro de 2010

"12mR"

Constellation


Sovereign

"Os americanos, com efeito, na quadra que estamos em Newport, preparam-se activamente nas regatas de selecção que devem designar o defensor da famosa taça instituída pelo «Yacht Club» de Newport e de New York. Sabe-se que a regata da América se repete sempre que um país aceita o desafio renovado depois de cada vitória dos americanos, vencedores desde 1851.
Este ano os ingleses aceitaram o desafio. Construiram, especialmente com vista à regata, dois regateiros - o «Sovereign» e o «Kurewa V» - objectos de todos os seus desejos, frutos de todos os progressos da sua técnica náutica. Estes dois soberbos veleiros vão enfrentar-se em Cowes sob o olhar implacável dos peritos do «Royal Thames Yacht Club». O vencedor virá em Setembro medir-se com o vencedor dos representantes americanos. Estes têm barcos antigos mas modernizados e afinados com os últimos aperfeiçoamentos: o «Columbia», vencedor da taça em 1958 contra o inglês «Sceptre»; «Easterner» e «Nefertiti», igualmente antigos pretendentes à competição, e dois barcos completamente novos: o «American Eagle» e o «Constellation». Um sexto barco, o «Nereus», não concorreu: serve para treinar o «Constellation» do qual é irmão mais velho: o mesmo mastro em titanium, o mesmo aparelho, ou quase.
É um espectáculo extraordinário ver evolucionar estes barcos, mas é difícil aproximarmo-nos deles tal a sua velocidade e a rapidez das suas manobras."
Eric Tabarly
(O Constellation viria a vencer a Taça, em confronto com o Sovereign)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

"Raquel"


O Vouga "Raquel", construído por "Mestre" Alberto.
Fotografia enviada por João Senos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

"Puritan"






Foi o vencedor da edição de 1885 da America's cup. Em 1888 ruma à Europa onde passa o resto da sua vida como barco de transporte de carga e passageiros entre Portugal e os Açores. Apesar de ser um barco rápido, o seu tamanho não lhe permitia manter-se lucrativo. Foi desmantelado em 1925.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

"A Doida de Rolecha"


" - Não é tão doida como isso, mas a loucura aparece de vez em quando... Há quem diga que aparece com a Lua - explicou-me Barria, enquanto eu remava, levando a canoa para o local onde íamos recolher marisco.
À medida que nos aproximávamos, a silhueta da mulher destacava-se como um rochedo sombrio e vivo à beira da praia. Usava um vestido preto e coçado, estava acocorada e, de vez em quando, atirava para a água pedrinhas que tinha no regaço, num gesto infantil e equívoco, que podia ser interpretado como um apelo ou um adeus. Era semelhante a uma camponesa atirando grãos à criação.
- Está a dar de comer ao mar - disse Barria..
- O quê? Pedrinhas?
- Para ela são migalhas que todas as manhãs atira ao mar, é o pequeno-almoço do marido...
A princípio, julguei que Barria troçava de mim. Ou, então, que também ele era um pouco poeta, ou um pouco doido, também ele...
-Uma mulher casada com o oceano! - repliquei no mesmo tom."
Francisco Coloane in Naufrágios

"Deep Blue"








Fotografias- K. Arrigo /C. Borlenghi


domingo, 17 de janeiro de 2010

"Mulheres do meu país"










Fotografias de António Cravo

"Mar Largo"


ò mar largo, ò mar largo
ò mar largo sem ter fundo
mais vale andar no mar largo
que nas bocas do mundo.

Cantiga popular - contribuição de Sérgio Paulo Silva

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

"Arqueologias"






A última fotografia do post anterior já andava por aqui há algum tempo, sempre gostei muito dela. Mostra um barco de linhas superiormente desenhadas, de uma elegância fora do comum e que deve dar imenso prazer a tripular. Procurei e encontrei mais duas do mesmo barco e uma terceira de um outro da mesma classe, originária do norte da Europa.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

"Vintage Sailing"





"Costa Nova"


"Há a praia da minha infância, em Espinho, quando era mais pequeno, e a da minha adolescência mais profunda, na Costa Nova, dos 14/15 anos, dos primeiros amores, era eu campeão de natação e gostava era de andar na Ria, à vela ou à pesca. Lembro-me bem do cheiro da Ria...essa é a praia das praias. Mas, nos anos 1980, descobri a Foz do Arelho, mais selvagem, em estado puro, um sítio onde podia pescar robalos à vontade. Gosto muito do Atlântico,do cheiro do Atlântico - lembro-me que quando estava exilado em Paris, ia até Biarritz só para sentir o cheiro do mar. Gosto das águas fortes e lá ouve-se o silêncio e a música do mar. E ainda vou, na Primavera, no Outono e no Inverno...Tenho muitos poemas escritos ali. E da minha varanda vêem-se Peniche e as Berlengas. E às vezes, só a neblina."
Manuel Alegre in Visão de 9-7-2009

sábado, 9 de janeiro de 2010

"Les Nuits"


Nos dias menos bons, talvez alguns de setembro ou outubro, saio para uma volta que se adivinha sem história, só o vento vago de oeste a querer virar pra sul. E vai virando, o vento bate-nos pelas ventas e arrependemo-nos de ter tirado férias naquela semana. Não tarda que os ameaços o deixem de o ser e comece a cair uma chuva esparsa, grossa, fria. Se há coisa que mexe é andar na água com um céu de chumbo, sem saber bem o que nos espera, mas é um espectáculo único.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

"God is in the details"







"Arte de Velejar"


"A arte de velejar é o desporto náutico mais são, mais próprio e mais fecundo em imprevistos e emoções que o mar oferece ao homem.
Não visa, em especial, ao robustecimento muscular, mas, em virtude do meio onde se pratica, contribue para desenvolver o físico do indivíduo.
Permite, igualmente, desenvolver a iniciativa e a decisão a um grau que a maioria dos desportos não conhece, exige da parte de quem o pratica uma boa dose de confiança em si mesmo, a par de um agudo sentimento de responsabilidade.
As situações imprevistas, em que a serenidade e decisão são tão necessárias para as enfrentar, como a rapidez e segurança para as resolver, dão ao velejador uma têmpera especial. Os casos complicados e as rascadas requerem tanto de reflecção madura como de prontidão na decisão.
O nauta aprende,assim, em contacto com os elementos, a contar só consigo para resolver as dificuldades.
Este desporto aviva e anima o espírito de observação e o golpe de vista em apreciar ràpidamente as situações. Muitas vezes, a segurança do barco e das vidas depende de uma simples rajada mal estimada ou duma manobra tardia ou executada atabalhoadamente.
O velejador, entre este meio especial e a Natureza, desenvolve a atenção concentrada e inteligente.
O desporto náutico cria-lhe pouco a pouco uma mentalidade nova e permite-lhe desenvolver e melhorar as qualidades de iniciativa, desembaraço e perseverança.
É pois, o desporto ideal que, como nenhum outro, prepara o indivíduo para a luta pela vida."
Condensado do livro « Arte de Velejar »

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

"Veronique"



Dispensa apresentações para a maioria e é um dos desenhos mais bonitos da Ria. Tem uma silhueta inconfundível, carisma e uma história fora do comum. Como admirador do "Veronique", pedi ao Comandante João Veiga que me escrevesse umas palavras sobre ele. A ele o meu agradecimento e aos autores das fotografias, um pedido de desculpas pela usurpação e manipulação das mesmas.

" O estaleiro naval do mestre Alberto, praticamente dentro da cidade de Aveiro, ganhou fama mundial pela qualidade dos seus trabalhos. Ainda há muito pouco tempo recuperou a nau "D.Fernando e Glória", construída em Goa e destruída por um incêndio nos anos sessenta. Esta fama mundial que granjeou fez acorrer aos seus estaleiros veleiros de todo o mundo, de iates e também de vagabundos do mar, homens de grande experiência e conhecimento, de uma riqueza cultural que dá gosto beber nas longas conversas das tertúlias que tenho o prazer de participar. Destes destaco dois sexagenários, o inglês Andrew e o alemão Georg.

O inglês naufragou à entrada da nossa barra há três anos. Nesse naufrágio perdeu a mulher que não resistiu ao Mar alteroso e a um braço engessado que a arrastou para o fundo do Mar. Depois do naufrágio foi ficando por cá, habita no seu tri-Maran semi destruído que ele recupera aos poucos para continuar as suas sagas marítimas à volta dos sete mares.

O Georg, um pouco mais velho, veio reparar o seu 36 pés de ferro, foi também ficando, esperando a melhoria do estado do Mar, tertuliando com os velhos marinheiros que por aquele estaleiro aparecem todos os dias e fazendo pequenos trabalhos para o Mestre Alberto.




Quando terminou a reparação do seu veleiro, retirou-o da carreira e amarrou-o a um velho arrastão azul que esperava ser desmantelado para a sucata. Já lá estava há uns meses e chamava a atenção pelas linhas esbeltas que ostentava. A meio de uma semana de Janeiro do ano passado os dois Marinheiros resolveram vir à cidade beber um copo num dos bares de gente do Mar que por aqui existem. Ao passar do portaló do barco onde estava amarrado, Georg escorregou e caiu. Transportado para o Hospital, diagnosticou-se fractura da coluna que o manteria na cadeira de rodas para o resto da vida. No domingo a seguir faleceu.

O resto juro que é verdade, eu assisti. Por volta das sete da tarde desse domingo, sem ponta de vento ou barco a levantar as águas da ria, o veleiro do Georg agitou-se estranhamente e as adriças bateram no mastro de alumínio de forma compassada e gritante, lembrando sinos a tocar sinais pela morte de alguém, como é hábito nas nossas aldeias.




Eu estava presente com um amigo e fomos ver o que se estava a passar e nada descobrimos. Na altura não demos ao facto outra importância que não fosse a da curiosidade e estranheza pelo que não sabíamos explicar.

Na segunda-feira seguinte, tivemos a notícia que Georg tinha morrido em Coimbra pouco depois das sete da tarde, a hora a que o Veronique se agitou, sentindo a morte do seu dono.

O Veronique é um sloop de linhas clássicas com a proa em meia lua a lembrar os lugres do estaleiro do Mestre Mónica.

Quis o destino que me tornasse proprietário desse magnífico barco e, mais do que isso, Amigo do Udo Postfcher, filho do Georg que tanto amava aquele barco que era a sua casa.

O Veronique já ostenta o pavilhão da Quinas, mas chamar-se-á sempre Veronique."

João Madail Veiga - (10-Jan-2001)