Endeavourquarta-feira, 11 de novembro de 2009
"S. Martinho"
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
domingo, 8 de novembro de 2009
"O difícil refúgio"

Este frio, este frio que de repente chegou sem que o suspeitassemos às nossas vidas - outono havias de vir, minha querida Irene, tu que antes de todos o adivinhaste sibilando pelas frinchas dos teus olhos - este frio oceânico que arrepia os gatos e enovela os cães é-me agradável por tudo quanto aporta à minha vida: a cor dos diospiros e das romãs que revejo à noite na lenha que de novo arde, o cheiro das maçãs e do bagaço que espreita a voz dos alambiques proibidos, as derradeiras rosas e os últimos figos, as folhas, a química das folhas, das videiras ou dos plátanos, da trepadeira que forra a parede da velha casa; este frio, este frio que de repente chegou e que se dilui nas chamas que contemplo e me bailam na alma onde o mar está chão, que enquanto caminho me fustiga o rosto, é-me agradável. Estão nus os giestais há muito esquecidos de Maio e enquanto as cadelas buscam aromas de perdizes nos refúgios que o verão lhes deixou, eu caminho serra fora. Sabem dos meus passos os arroios e os montes. Ninguém mais. Mas se o frio que agita os rosmaninhos ou os bugalhos dos carvalhos me recordarem o teu nome então eu o amaldiçoarei pelos rasgões que me faz e desejarei o doce tempo de verão em que jamais fui feliz.
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Sérgio Paulo Silva in Poemas de Amor e Não
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
domingo, 1 de novembro de 2009
sábado, 31 de outubro de 2009
"Asa Negra"

Já falei dele aqui, do Asa Negra, um Jollenkreuzer como o da fotografia, que veio parar à Ria porque Francisco Ramada importou os planos. Foram feitos mais dois, o "Vareiro", mais conhecido pelo "Alemão" e um outro construído no Algarve que não lhe conheço para além disso.

Modelo bastante popular na Alemanha, aqui com um personagem bastante conhecido a bordo do seu exemplar.
Anónimo disse...
Caro Almagrande,de facto esse barco é muito amado pelos novos proprietários. A história que lhe falta acerca desse barco posso contá-la aqui um pouquinho. Um dia ainda muito novo a velejar em optimist avisto o tão afamado asa negra, coberto com ripas de madeira e mais algum entulho. Ora eu estava em plena regata no Sporting Club de Aveiro, ( essa regata não esqueço: ganhei o 1º prémio que na altura não era uma taça. Quando vi uma série de barris para entregar como prémio fiquei muito chateado. " Ora, logo agora que fiquei em primeiro é que não me vão dar uma taça". Conclusão, era um pote de ovos moles com o qual me deliciei na viagem até Oliveira de Azeméis. Nunca mais esqueci essa regata. Vi um veleiro que queria que o meu pai comprasse e consolei-me com ovos moles.) Depois, e ainda miúdo, teria 12 anos, consegui convencer o meu pai a ir ver o barco de que todos tanto falavam, e que eu próprio já tinha andado a ver ainda no carregal quando estava muito mal tratado. O meu pai, mesmo sem saber velejar, lá levou o Mestre Zé, o mesmo que o tinha construído no final da década de 60, e este, tira uma navalha no bolso e " esforancou " o barco todo, mas no final diz-nos, Sr. Ferreira ainda temos barco. E foi aí que o "asa negra" ressuscitou. A partir daí foi a compra e depois a reconstrução. E agora é um barco diferente com quarto de casal fechado ou não à proa, quarto individual fechado à popa, wc fechado a estibordo, cozinha de recolher para baixo do convés a bombordo, e praia de acesso à água á popa. Enfim um barco modificado, actualizado e muito amado pelos actuais donos. Adorei ver o meu barco, tal como nasceu, no seu blog Almagrande, o meu muito obrigado.RF
Enviada pelo actual proprietário do "Asa Negra", um dos barcos que veio do frio, a fotografia e o comentário;
Anónimo disse...
Caro Almagrande,de facto esse barco é muito amado pelos novos proprietários. A história que lhe falta acerca desse barco posso contá-la aqui um pouquinho. Um dia ainda muito novo a velejar em optimist avisto o tão afamado asa negra, coberto com ripas de madeira e mais algum entulho. Ora eu estava em plena regata no Sporting Club de Aveiro, ( essa regata não esqueço: ganhei o 1º prémio que na altura não era uma taça. Quando vi uma série de barris para entregar como prémio fiquei muito chateado. " Ora, logo agora que fiquei em primeiro é que não me vão dar uma taça". Conclusão, era um pote de ovos moles com o qual me deliciei na viagem até Oliveira de Azeméis. Nunca mais esqueci essa regata. Vi um veleiro que queria que o meu pai comprasse e consolei-me com ovos moles.) Depois, e ainda miúdo, teria 12 anos, consegui convencer o meu pai a ir ver o barco de que todos tanto falavam, e que eu próprio já tinha andado a ver ainda no carregal quando estava muito mal tratado. O meu pai, mesmo sem saber velejar, lá levou o Mestre Zé, o mesmo que o tinha construído no final da década de 60, e este, tira uma navalha no bolso e " esforancou " o barco todo, mas no final diz-nos, Sr. Ferreira ainda temos barco. E foi aí que o "asa negra" ressuscitou. A partir daí foi a compra e depois a reconstrução. E agora é um barco diferente com quarto de casal fechado ou não à proa, quarto individual fechado à popa, wc fechado a estibordo, cozinha de recolher para baixo do convés a bombordo, e praia de acesso à água á popa. Enfim um barco modificado, actualizado e muito amado pelos actuais donos. Adorei ver o meu barco, tal como nasceu, no seu blog Almagrande, o meu muito obrigado.RF
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
"Bichos"
Chegaram cá a casa as primeiras castanhas, fracas com certeza porque, segundo rezam os antigos, ainda não apanharam o frio suficiente que as torne paladosas. Segundo o Borda d'Água é tempo de ir ao pomar colhêr os dióspiros, que por aqui partilhamos com uns quantos melros gulosos, finos que nem alhos, gordos e lustrosos. Há por aqui uns quantos, que vão dividindo a fruta connosco ao longo do ano, havendo, ou, atrevidos, à falta de melhor, o bago de arroz que sobeja da comida dos cães.
A convivência com o campo é tudo menos monótona, ao nascer de cada dia somos confrontados com realidades que julgaríamos pouco possíveis há alguns anos. Se me dissessem que iria ver a pastar tranquilamente na minha horta, uma família de javalis, ao cheiro da fruta caída, acharia pouco provável. Ou se me deparasse à porta de casa com um esquilo, daqueles que só se vêem nos filmes americanos e em postais natalícios, completamente estraçalhado pela família de Jack Russells que partilha do nosso espaço, iria duvidar.
Aliás, estes meus cães não páram de me surpreender, possibilitando-me vêr coisas quase irreais como certa vez em que, alertado pela algazarra que faziam, fui dar com três deles encurralando um gato no telhado de um celeiro de segundo andar. Resultado; gato - 1, Jack Russells - o.
Vê-lo cego por um ódio ancestral, ao ponto de se estatelar cá em baixo.
O bucolismo do campo desaparece com a visão estranha da capoeira, devassada por uma doninha pela noite ou de lagostins que gostam de dar umas trincas nuns pés de milho. A vida no campo é tudo menos sonolenta, nunca entediante.
E por falar neles, nos cães , o patriarca está muito velho, cegueta e moio de pancada prós mais novos. Ganhou o direito, por mérito próprio, de pernoitar no quente e levar uma côdea pela ceia.
Habitualmente dorme a sono solto, mas há um bocado ao entrar na cozinha, vi-o acordado com uma expressão de quem está a prestar contas com a vida. Palpita-me que não passa a queda da folha. O barco, esse, continua enclausurado no cabanal.
sábado, 24 de outubro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
"Les Nuits"
Jimi Hendrix
Betty Page
Tom Waits.
Brilhante e imaginativa forma de reinventar alguns ícones POP.
Fica o link para os restantes.- http://www.flickr.com/photos/iri5/sets/72157611954107572/
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
"White Sails"
sábado, 17 de outubro de 2009
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
"O Litoral"

" O litoral português devia formar uma província à parte, esguia, fresca e alegre, só de areia e espuma. Eu, pelo menos, assim o vi sempre, comprida e lavada franja de renda da variegada colcha lusitana. Repartido em fatias para satisfazer a gulodice do Minho, da Beira, da Estremadura, do Alentejo e do Algarve, fica quebrada a unidade dum sorriso que desce inteiro de Norte a Sul, sem compartilhar dos humores vários que caracterizam as terras a que, por obrigação oficial, tem de pertencer. Passada a foz do rio Minho, até á embocadura do Guadiana, é sempre Atlântico e praia aberta. Um ou outro calhau que se interpõe, foi colocado de propósito ali para o mar se entreter e fazer som. Sempre Atlântico, praia... e pescadores. Sempre uma onda a desfazer-se na proa dum barco carregado de homens que esperam uma aberta para largar.

E quer seja em Viana, Póvoa, Espinho, Mira, Pedrogão, Nazaré , Peniche, Cascais, Sezimbra, Lagos, Olhão ou Tavira, é sempre a mesma mão que semeia a rede sobre o azul ondulado. É certo que de cada popa se vê um Portugal diferente, verde e gaiteiro em cima, salino e moliceiro no meio, maneirinho e a rilhar alfarroba no fundo. Camponeses de branqueta e soeste a apanhar sargaço na Apúlia, marnotos a arquitectar brancura en Aveiro, saloios a hortelar em Caneças, ganhões de pelico a lavrar em Odemira, árabes a apanhar figos em Loulé.

Metendo barco pela terra dentro, é mesmo possível ir mais longe. Olhar de perto a miséria da Ribeira, no Porto, ver semear as dunas da Gafanha, ter miragens nos campos de Coimbra num dia de cheia, ao lado dos choupos constrangidos de solidão, fotografar as tercenas abandonadas do Lis, sofrer no cenário da Arrábida uma alucinação de cor, ou cansar os olhos na tristeza dos sobreirais do Sado.

Mas são vistas... imagens variegadas dum caleidoscópio que muda no fundo da mesma luneta de observação. A realidade que irmana a grande família ribeirinha não é o fogo preso das festas da Agonia, nem a lealdade do castelo da Feira à primeira voz da Pátria, nem a sedução dos braços líquidos da ria, nem a podridão fecunda das valas do Mondego, nem a música oceânica do pinhal de Leiria, nem a desabrigada tristeza alentejana, nem a brancura das amendoeiras em flor.

É a força da maré que sim ou não deixa encalhar o barco em porto de salvamento. Um porto que é sempre a mesma praia imensa, branca, estéril, onde as mulheres, Cassandras sempre de luto, rezam e profetizam."
Miguel Torga in Portugal
terça-feira, 13 de outubro de 2009
domingo, 11 de outubro de 2009
"Faina Maior"

"Chuva, muita chuva, o vento vem a seguir rijo, duro, bárometro muito baixo. O mar alaga o navio de proa à popa. O pessoal de quarto em cima já não ousa passar para a proa, segura~se a cabos passados de um a outro bordo. Amarra-se o homem ao leme. Não há refeições, come-se uma latinha de conversa, bebe-se um golinho de aguardente. O navio já não aguenta a "capa". Corre à popa, agora em "árvore seca", e aquela volta de mar arranca, despedaça todos os dóris, rebenta o albói da câmara, leva os faróis da borda, - ai, ai que desgraça, vão nove homens varridos ao mar, salvam-se dois não se sabe como.
Arriba-se aos Açores, reparam-se as avarias, volta-se para os Bancos. Depois da tempestade vem a bonança."
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Ana Maria Lopes e Francisco Marques in Faina Maior
sábado, 10 de outubro de 2009
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
"le Bateau Ivre"

(...)
O vento abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve que uma rolha eu dancei nos lençóis
Das ondas a rolar atrás de suas vítimas,
Dez noites, sem pensar nos olhos dos faróis!
Mais doce que as maçãs parecem aos pequenos,
A água verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das manchas azulejantes dos venenos
E das manchas azulejantes dos venenos
E vinhos me lavou, livre de leme e arpéu.
Então eu mergulhei nas águas do poema
Do Mar, sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando os azuis, onde às vezes - dilema
Lívido - um afogado afunda lentamente;
Onde, tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos lentos sob o rutilante albor,
Mais fortes que o álcool, mas vastas que os nossos prantos,
Fermentam de amargura as rubéolas do amor!
Conheço os céus crivados de clarões, as trombas,
Ressacas e marés: conheço o entardecer,
A aurora em explosão como um bando de pombas,
E algumas vezes vi o que o homem quis ver! (...)
Arthur Rimbaud
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