quinta-feira, 9 de julho de 2009

"Bom Verão"


Visto os calções de banho e uma T-Shirt, talvez aquela que ostentava garbosamente no peitoral duas mulas puxando em sentido contrário, a tentar destruir a reputação da marca. A toalha, por trás do pescoço, como cachecol de verão, completava-me. Descia as escadas, com as as xanatas a fazer mais barulho do que era costume, cá em baixo a azáfama do costume.
Devidadamente acomodadas, entravam pró saco da galinha mãe, iguarias frescas que saciariam as crias mais tarde, água num jarro de plástico verde pastel.
No autocarro, presumo que alemão, tais os interiores espartanos, entravam as peixeiras da Torreira que tinham ido ao mercado vender.
Eu vi-as a enfiar as canastras no porão da camionete e pedia que nenhuma daquelas pesonagens vestidas de preto se viesse sentar ao meu lado. Habitualmente fediam.
Depois de cumprido o cálvario da velha estrada, curva contra curva, com os utentes a apreciar os dotes de pilotagem do condutor, lá entrávamos na reta da varela e dos milheirais.
Sobe-se a ponte, com o motor do veículo a gemer, a carroçaria a estremeçer e umas quantas rezas pra que ele não se fine logo ali.
O mar ainda preguiçoso,com ondas de palmo e meio chama por mim, o rio tem que se lhe diga mas , mar é mar.
Besuntam-me o corpo com creme duma lata azul e soltam-me.
O dia corre ao sabor do mar, do sol e da felicidade absoluta.
Como um cacho de uvas, a água do jarro verde pastel está morna e sabe a plástico.
O entornar na areia do resto da água morna do copo verde, dá por fim à praia. No regresso não estou tão atento às manobras do piloto. Deito-me com o cheiro da maresia e daquele creme da lata azul.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

"Pé ante Pé"


Na sexta-feira fui até à Ribeira de Pardelhas, a convite de um local, para uma "Assadela de Chocos"à moda da Murtosa. Como é à moda da Murtosa? Basicamente, e pelo que me apercebi, serão chocos, em quantidades industriais, assados em brasas perto do local onde tinham sido acabados de descarregar, comidos com a sua tinta e regados abundantemente com vinhos de gabarito. As batatas foram consumidas com parcimónia porque, segundo os populares, dão sono. Com e sem tinta, aviaram-se uns quantos alqueires deles, descontando-se aqui algum exagero do cronista. A noite, que parecia condenada pela morrinha que caía ao início, acabou por ficar de acordo com o manjar, de alta qualidade. Perto do local onde os comensais faziam a festa, o estaleiro dos "Amigos da Ria", onde há uns anos fervilhava uma actividade estonteante, obrigava à pergunta do porquê de estar sempre fechada. Acabaram os subsídios, segundo me disseram, e formadores e formandos foram à sua vida. Acabaram os fundos, e pouco ou nada ficou. Dos que andaram a iniciar-se nas artes da construção naval, quantos a continuaram como modo de vida? Nenhum! Ficou a sede, que serve para uns acontecimentos esporádicos, de índole gastronómica e social. No Sábado, fui até à Ribeira de Válega, participar em mais um anivesário da "Cenário". No final da noite, a satisfação era geral entre os associados e têm razões para isso. Da vontade e trabalho de meia dúzia de associados, que ajudam e contribuem com esforço, e tempo, e dedicação, estão a tornar a "Cenário" num exemplo que merece ser realçado. No cais, reabilitado por eles, repousam barcos que foram recuperados ali a dois passos. Dentro do antigo armazém de sal, já outros se perfilam para lhes seguirem os passos. Novas caras vão surgindo com o passar dos anos, pessoas que se vão juntando em torno de um gosto comum, o dos barcos de madeira. Da Ribeira de Pardelhas à de Válega vai uma distância muito grande, em atitude, a fazer lembrar as palavras de Kennedy; "Don't ask what your country can do for you..."
Obrigado à "Cenário" pela bela tarde. BONS VENTOS.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

"aniVercenário"


A "Cenário" celebra, por estes dias, mais um aniversário. Aqui ficam os meus parabéns pelos cinco anos de bons e leais serviços à causa. Lá estarei, a ajudar a apagar as velas. Bons Ventos e que venham no mínimo outros tantos. Aquele abraço.

terça-feira, 30 de junho de 2009

"Beside Seaside"







Snapshots of Portuguese coastal life.
P.S. Esta é uma série aldrabada porque, erradamente, situei a primeira fotografia na costa Portuguesa, o que não é verdade. Fica o reparo, e a fotografia, que é boa demais para a apagar.

"Os melros cantores de Pardilhó"


" A aldeia, encostada à Ria de Aveiro, tem uma boa mancheia de habitantes dependendo da terra ou das fábricas próximas, meia dúzia de cafés vulgares, uma estação dos Correios, uma cabine telefónica, uma agência bancária, dois carros de praça e um largo ajardinado com um quiosque e uma estátua. Já houve calafates, hoje resta um em actividade; o próprio sindicato da classe fechou. Às três da tarde de todos os Verões os senhores cansados dormem a sesta.(...)
Sempre que regresso numa data qualquer do mês de Agosto, o meu primeiro cuidado é arrumar os livros no escritório do falecido senhor meu sogro, ir ao bazar por papel e canetas de feltro, e esperar a manhã inaugural das férias com uma impaciência feita de sobressaltos e alta voltagem arterial. Na manhã seguinte eles lá estão, os melros, aquecendo a gorja para me saudarem. Primos irmãos, não escondem o afecto nem eu lhes perdoaria tal. Houve um que vinha cantar-me no rebordo do grande alpendre, fiado no professor francês: «E para começar, música!»
Se era lição aprendi-a porém mal, pois cada vez mais a dissonância vem tomando conta da minha poesia, ao ponto de poder ser confundida com prosa baça. Pouca vigilância, talento disperso: uma explica o outro, e vão vividos os anos suficientes para eu não mudar um mícron que seja. Agora espero a velhice e dentro dela a morte surda."
Fernando Assis Pacheco

domingo, 28 de junho de 2009

"Ria"




Em dia de sulada, um final de tarde a adivinhar uma noite de chuva.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

quinta-feira, 25 de junho de 2009

"Terry Miller"





Fotografia, desenho? Fica o link para o blog deste artista de mão cheia. http://pencilshaver.blogspot.com/

quarta-feira, 24 de junho de 2009

segunda-feira, 22 de junho de 2009

"Alma Lavada"


Sábado, ao raiar do meio-dia, lá fui até à Torreira com a esperança de ter um fim-de semana decente de vela. Na sexta tratei de arranjar tripulação, o que nem sempre é fácil, mas lá se conseguiu arranjar maneira de ter "Quorum" a bordo. No sábado, hora e meia depois do esperado e depois de uns quantos telefonemas e impropérios, lá apareceu um dos proas da embarcação. Mas vá lá, apareceu..
Depois das canseiras habituais, levanta mastro, afina aqui, aperta acolá, lá se pôs o barco na água. A seguir foram dois dias perfeitos de vela, daqueles que raramente acontecem na Ria. Calor, vento certinho e sem rajadas, na conta pra umas voltas descontraidas. Para compor o ramalhete, água com fartura, às horas certas. No domingo soprou um bocadinho mais forte e a Ria arrebitou qualquer coisa, mas com o calor que estava, as chuveiradas até souberam bem. No final ainda houve quem mandasse uns mergulhos, que a água convidava.
Costuma-se dizer que o óptimo é inimigo do bom, não foi o caso.

domingo, 21 de junho de 2009

"Havia sempre um cão que ia a bordo"

Falava sózinho o marinheiro sentado a uma mesa. Podia ter-se sentado numa outra mesa qualquer onde havia outras pessoas ou ao balcão do bar onde outros falavam também e onde um empregado talvez não os ouvisse. Sentado diante dum copo que fazia oscilar entre os dedos, falava sózinho o envelhecido marinheiro e dizia insistentemente que havia sempre um cão que ia a bordo. O resto do seu solilóquio perdia-se nas ventanias que fustigavam a sua embarcação desamparada onde ia um cão.
Quem nunca teve um cão não sabe o que é ser amado. Não sei se foi Kant que o disse ou qualquer outro filósofo que tenha escrito sobre o sentimento da angústia. Poderia ter sido o marinheiro. Ou outro qualquer navegante porque a vida tem muitos outros mares e muitas outras marés para as pessoas navegarem.
O cão… Desde tempos imemoriais, dos segredos das areias do velho Egipto dos faraós, que o cão viaja ao lado do homem. Ou por dentro do homem. De ser tão antiga a história confundiu – os, entrelaçou raízes, misturou as vidas. Vida de cão. Sobretudo as vidas que viajam. Já sabeis: para quem viaja sem rumo, sem destino certo, nenhum vento é favorável. E os vadios, os abandonados não têm rumo nem destino certo. Podem apenas esperar uma monção favorável que quase nunca sopra. Para sustento lhes basta um afago, a ternura duma mão, um olhar, mesmo que volátil, e viajarão sempre carregando a suas fomes milenares e as cicatrizes do abandono. Brel, muito antes de navegar, já trazia por dentro um desses cães:

Laisse moi devenir l’ombre de ton ombre
L’ombre de ta main
L’ombre de ton chien

Sentir sobre a sombra o afago da mão querida, eis quanto bastava para diluir a corrosão. Por certo o sabia o marinheiro sentado a uma isolada mesa do bar: havia sempre um cão que ia a bordo. E o barco, todos os barcos viajam sempre até encalharem ou naufragarem, que também são destinos de cão. Sei dum barco que naufragou um dia nas planícies de Soria:

Oye otra vez, Dios mio, mi corazón clamar
Señor, ya estamos solos mi corazón y la mar

Sim, eu sei porque Machado disse isto. E soube-o melhor quando o rumo do meu barco se tornou incerto fazendo ganir o cão que ia a bordo.
Texto de Sérgio Paulo Silva.

sábado, 20 de junho de 2009

"Les Nuits"


Fazer vela, coisa que raramente faço, é indescritívelmente belo. Não se sabe muito bem porque os barcos fascinam os homens mas ninguém é imune à beleza dum barco à vela. Sejam "Optimists" no seu bambolear característico, com miúdos que não lembrava ao diabo de tão novos que são, o poder fantástico dum moliceiro à bolina com vento forte ou à grandiosidade dum "Creoula" ou duma "Sagres". Das coisas mais bonitas que já vi em termos de vela, foi-me possibilitada por uns dos mais capazes lemes da Murtosa, não aos comandos de um moliceiro em que é "Ás", mas antes aos de uma bateira, em treinos para a regata de S.Paio. Penso que se chama Reinaldo, sem certeza, e deliciou-me com uma récita de bem manejar um barco.
E se ninguém é imune à beleza, ao sonho, quem lá vai dentro sê-lo-á ainda menos.

terça-feira, 16 de junho de 2009

domingo, 14 de junho de 2009

"A Desperate Battle"

Há uns tempos atrás descobri Russ Kramer e fiquei admirador das suas pinturas, este é o seu último trabalho a que junto a sua descrição.

"The America’s Cup trials of 1934 were closer than any before or since. YANKEE, the Boston syndicate boat, under owner Chandler Hovey and helmed by Charles Frances Adams, had the upper hand throughout the Summer. But, after Mike Vanderbilt ordered RAINBOW to be re-ballasted, she soon drew even in matches. All tied up going into the final race, RAINBOW would win it by a single second, and when chosen over YANKEE to defend, it was a crushing blow to the team from Marblehead."

"Vintage Sailing"

Shamrock IV


Bluenose

Britannia


Water Witch

sábado, 13 de junho de 2009

" Les Nuits "


" Uma vez que ignoras o que te reserva o dia de amanhã,
procura ser feliz, hoje.
Toma uma ânfora de vinho, senta-te ao luar e bebe,
lembrando-te que, talvez amanhã, a lua te procurará em vão. "
Omar Khayyam, poeta persa.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

quarta-feira, 10 de junho de 2009

domingo, 7 de junho de 2009