quarta-feira, 18 de março de 2009

"Argus"


"O vento frio do norte aumentava constantemente de intensidade e os flocos de neve dançavam em rodopios diante da luz forte das lâmpadas do convés. O vento começou a assobiar nas enxárcias de aço e as ondas do mar, quebrando-se ao atingir o costado, varriam o convés, misturando-se com o sangue e as entranhas do peixe. Amontoados nos enormes quetes, os bacalhaus rebolavam e deslizavam para um lado para o outro quase como se estivessem vivos. Por todos os cantos do convés, a neve e a água brilhavam sobre as badanas e sobre os rostos dos homens fortes e barbudos que tinham começado o trabalho às quatro da madrugada. Ágil e determinado, o primeira linha parou por um momento de escalar peixe e de arrancar espinhas para levar uma mão suja ao sueste e tirar de lá um cigarro. Cada homem concentrava-se no seu trabalho individual, em silêncio, enérgica e eficientemente, fazendo valer cada golpe de faca e movendo-se por entre amontoados de bacalhau, de cabeças de bacalhau e de entranhas que lhes chegavam até aos tornozelos, por vezes até aos joelhos - e labutavam sem parar, hora após hora. Nove da noite, dez da noite, onze da noite...Ninguém tocava o sino a marcar as horas e todos ignoravam o altifalante. Pouco passava das onze quando o trabalho finalmente acabou, à excepção das espinhas, tarefa que poderia ser terminada no dia seguinte pelos moços. Os pescadores podiam finalmente descer. Foi servida então uma ceia generosa, de sopa de peixe. A «chora», como lhe chamavam.
- Não a comas - avisou o César. - Porque quem a comer há-de regressar aos bancos.
Aceitei o conselho e não a comi, porque era feita de cabeças de bacalhau e de caras de linguado gigante. E porque não tinha vontade de regressar aos bancos. Esta rotina prolongar-se-ia ainda por seis semanas, e depois disso iríamos rumar à Gronelândia, onde as condições eram bastante piores. Achei que uma viagem para mim bastava."
Allan Villiers in A campanha do Argus

segunda-feira, 16 de março de 2009

"Ria de Aveiro"






Um copo de três para quem gosta desta Ria, sendo a primeira dedicada aos blogues "Imagens com Água" e "Milhas Náuticas"! Um abraço aos blogueiros citados.

"Vouguinha"



A construção do "Vouguinha" de A. Carvalho vai avançando. Por este andar devemos ter Bota-Abaixo lá pró Verão.

domingo, 15 de março de 2009

"Les Nuits"


" There is a poetry of sailing as old as the world" - A. de Saint - Exupéry

sexta-feira, 13 de março de 2009

"Jeff Weaver"










Mais cinco de Jeff Weaver

"Shamrock V"

Tenho um gosto especial por estes colossos, devem ter proporcionado momentos absolutamente ímpares a quem os viveu. Um homem como Sir Charles Lipton, que durante trinta anos correu atás de um sonho que nunca alcançou, gastando milhões e sempre com um fair-play fora do vulgar é um exemplo. Se pensarmos que, entre 1899 e 1930 mandou construir cinco barcos extraordinários, do mais moderno que havia no Velho Mundo para atravessar o Atlântico e ir desafiar os americanos, faz dele um homem especial.

Shamrock V - comp.-36,58m / larg. -5,85 / cal. -4,81m / ano de construção - 1930

quinta-feira, 12 de março de 2009

"Será?"



Será que é este fim de semana que vai terminar a hibernação? Deve ser. Consultei os oráculos, os feiticeiros da meteorologia nacional e até o guru do vento. Ameacei o proa com um Colt 44, arranjei maneira de antecipar um bocadito o descanço semanal e até acendi uma velinha ao S.Pedro. Toca a tirar o barquinho do cabanal, dar-lhe aquela banhoca a tirar uns quantos meses de pó, juntar escotas, velas e restante palamenta há meses espalhada pela casa e descobrir onde param os calçonecos de banho. Será? Deve ser.

terça-feira, 10 de março de 2009

segunda-feira, 9 de março de 2009

"Swans"

"Constitution"


"Reliance"


"Reliance"


"Defender"


"Shamrock"


Todos eles tiveram uma vida curta, alguns apenas duraram uma época. Depois de fazerem o que se esperava deles, eram desmantelados sem apêlo nem agravo. Outros houve que nem a "passerelle" maior da vela tiveram direito a calcar. Grandiosos na água, catedrais erguidas por homens empreendedores, implacáveis nos negócios e para quem uma vitória na "Taça" representava o máximo reconhecimento da pujança económica e técnica do seu país.
Fora de água revelavam linhas de uma elegância invulgar que ainda hoje surpreendem pela sua beleza e fluidez.

domingo, 8 de março de 2009

"Mulher"




Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco... ?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!


Presídio - David Mourão Ferreira

sábado, 7 de março de 2009

"Alan Villiers"









Fotografias de Alan Villiers

quinta-feira, 5 de março de 2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

"Asa Negra"








Parando e, tentando perceber de onde vem o meu gosto pela Ria, pelos grandes espaços, pelos barcos à vela, por momentos únicos que só se vivem lá, no meio dela, a este barco o devo.
Construído a partir de uns planos alemães de um Jollenkreuzer, importados por Francisco Ramada e também proprietário de um exemplar, "Vareiro" de seu nome, mais conhecido pelo "Alemão".
Era pau pra toda a colher, tanto servia para ir ao Cruzeiro fazer boa figura como a fazia também a passear a famelga ao fim de semana. Foi construído no estaleiro de Mestre José da Silva, de Pardilhó, nos anos finais da década de sessenta. A ele lhe devo a descoberta do prazer de fazer vela, do prazer libertador de estar na Ria, de dia ou de noite.
A ele lhe devo ter-me mostrado outra perspectiva, a outra face da moeda. "Vivre pour vivre".
Mas também lhe devo ter-me proporcionado outros momentos inesquecíveis, bons e maus. O balanço é claramente positivo.

terça-feira, 3 de março de 2009

"Prazeres"


O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialéctica
Tomar duche, nadar
Velha música
Sapatos cómodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável.
.
Berthold Brecht.

"Come fly with us.."


Um 49er a voar baixinho..

sábado, 28 de fevereiro de 2009

"Kaimiloa"


"8 de Maio.
Ao amanhecer largamos de novo o pano...
Que esquisito mar! Navegamos ao largo, e o Kaimiloa defende-se às mil maravilhas... É um lindo espectáculo a que não nos podemos subtrair: sentimos aumentar em nós uma admiração cada vez mais respeitosa pelo valente barquinho...
Vagas monstruosas elevam-se às vezes pela pela proa e por detrás, avançando para nós, acompanhadas do surdo ruído do rebentar das suas cristas. A cada momento pensamos que irão passar-nos por cima e submergir-nos. Agarramo-nos com força à cabine... e hup! o Kaimiloa levanta gentilmente o seu traseiro e as monstruosas vagas passam sempre a rugir... deixando apenas alguns borrifos na plataforma!
- Sempre o mesmo barulho para nada, digo eu a Tati.
- Se víssemos isto no cinema, responde o meu companheiro, não nos caberia um feijão frade...
No entanto, uma delas submerge-nos antes do anoitecer... e mesmo na altura em que o mar parece começar a cair... Uma dessas vagas, por acaso menos impressionante do que muitas outras, avança, rebentando como tantas... Sem reflectir, cerro para ela os punhos em ridículo gesto de desafio e grito: - Cala a boca palerma.
Apenas soltei o meu insulto, a vaga pareceu aumentar de volume, rebentou com um ruído furioso e caiu-nos em cima submergindo toda a amurada. Se não tivéssemos a presença de espírito suficiente para nos agarrarmos àquilo que estava à nossa mão, o Kaimiloa seguiria o seu cruzeiro sem equipagem...
- Não devia ter dito isso, censura-me Tati, cuspindo a água salgada que engolira. Nunca se deve insultar o mar!"
.
Eric de Bisschop in Kaimiloa- De Honolulu a Cannes pela Austrália e pelo Cabo, a bordo duma dupla piroga da Polinésia

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

"Suddenly, Last Night"


A noite passada, deitei-me bastante tarde à conta desta senhora e de uma outra igualmente grande, Katherine Hepburn. No silêncio absoluto da casa nessas horas, revi os dois desempenhos fabulosos em " Suddenly, Last Summer". O texto de Tennessee Williams, a realização de Mankiewics, e a interpretação do protagonista masculino Montgomery Clift ajudam ao grande duelo. Aliás, fica-se com a sensação que Monty, com o seu desempenho "low profile", está igualmente fascinado com as prestações femininas. Fica uma fotografia da sensualíssima Elizabeth Taylor, com o famoso fato de banho branco, que tantos constrangimentos causou à personagem no filme e que, acredito, deve ter sido bastante popular entre a assistência masculina nesse final da década de cinquenta.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

"Outras Paragens"










Mais uns quantos cartazes antigos a apelar à viagem, à preferência dos viajantes. Viajar é preciso.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

"Viva o inútil!"


"Foi tudo isto que os participantes retiraram desta regata: a aventura, a evasão, a confiança, uma reflexão sobre si próprios e sobre a vida, um exercício de esforço e de sofrimento, a medida das capacidades, das limitações de cada um, a aprendizagem do medo e da coragem. Tudo isto lhes ficará como aquisição importante pela vida fora.
Insatisfação? Sim, muitos experimentaram certa forma de insatisfação. Entre quase todos, para começar, a de não terem podido permanecer mais tempo nalguns dos locais visitados. Não terem podido deter-se nesses espantosos fiordes da ilha de Etats; nos ancoradouros desolados das ilhas Kerguelen ou Croizet. Alguns sonham já com o regresso àquelas paragens em cruzeiro turístico. Reviverem a fascinação das latitudes austrais, experimentarem a emoção das vagas gigantescas e dos espaços solitários que não há noutro lado, admirarem de novo o voo dos albatrozes, ou sentirem mais uma vez a atracção estética das montanhas de gelo flutuantes dos mares da Antárctida, magia de gelos esculpidos refulgindo em cintilações de azul, diamantes únicos e preciosos que a natureza oferece à audácia dos homens.
Ninguém, nesta volta ao mundo, perdeu o seu tempo. Todos regressam enriquecidos para o resto da vida. Lá longe, porém, três homens foram sacrificados por esse mar que eles amavam, e ao qual muito haviam dado de si. A sua maior razão de viver era a vela, o mar alto, a acção. Todos três eram homens verdadeiramente livres. Para eles , a vida que valia a pena ser vivida era aquela em que se aceita participar até ao risco de a poder perder.
Para todos os companheiros que deixaram Portsmouth naquele dia 8 de Setembro de 1973, rumo a esse desconhecido que se chamava a regata da volta ao mundo, havia, mais forte do que tudo, o fascínio da aventura. Souberam corresponder-lhe. A aventura pagou-lhes a centuplicar.
Nada é tão necessário ao homem como o inútil."

Jean-Michel Barrault in No cabo horn aos vinte anos

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

"N & B"










Fotografias de Patrick Debetencourt

domingo, 22 de fevereiro de 2009

"On the Rocks"


"Avistei-o... Dos bons, mesmo à proa! O coração batia-me no peito, sentia as mãos humedecidas. Mas não tinha dúvidas: ele aí estava, enfiado com a roda de proa, trânslúcido nessa meia luz matinal, impreciso qual medusa em águas límpidas, mas tenebroso como qualquer grande promontório. Era uma cadeia de montanhas com os seus picos agudos arranhando as montanhas, com falésias abruptas, colinas gastas e arredondadas, uma sequência de relevos surpreendentes e geométricos. Era de um branco muito puro na solidão absoluta do azul do céu e do mar. A montanha de gelo continha toda a sabedoria e toda a tristeza do mundo, as suas veias azuis denotavam nobreza e grandiosidade, representavam em si a pureza intocável e eterna. Na sua essência, reúne todo o sol do mundo, toda luminosidade do nosso sistema; conhece as tempestades e ignora-as; conhece os céus cinzentos e mantém-se mais vivo que eles; a sua luz estonteante rompe, sempre, vitoriosa, impõe-se, aterroriza ou afaga, e a montanha enorme deriva ao sabor das correntes, lenta, incansável, pacífica, evitando todo o contacto com as terras civilizadas."
Gérard Janichon
fotografia - Cartier Bresson

"Ooops"


O Governo adverte; "Se conduzir Não Beba".