
"O vento frio do norte aumentava constantemente de intensidade e os flocos de neve dançavam em rodopios diante da luz forte das lâmpadas do convés. O vento começou a assobiar nas enxárcias de aço e as ondas do mar, quebrando-se ao atingir o costado, varriam o convés, misturando-se com o sangue e as entranhas do peixe. Amontoados nos enormes quetes, os bacalhaus rebolavam e deslizavam para um lado para o outro quase como se estivessem vivos. Por todos os cantos do convés, a neve e a água brilhavam sobre as badanas e sobre os rostos dos homens fortes e barbudos que tinham começado o trabalho às quatro da madrugada. Ágil e determinado, o primeira linha parou por um momento de escalar peixe e de arrancar espinhas para levar uma mão suja ao sueste e tirar de lá um cigarro. Cada homem concentrava-se no seu trabalho individual, em silêncio, enérgica e eficientemente, fazendo valer cada golpe de faca e movendo-se por entre amontoados de bacalhau, de cabeças de bacalhau e de entranhas que lhes chegavam até aos tornozelos, por vezes até aos joelhos - e labutavam sem parar, hora após hora. Nove da noite, dez da noite, onze da noite...Ninguém tocava o sino a marcar as horas e todos ignoravam o altifalante. Pouco passava das onze quando o trabalho finalmente acabou, à excepção das espinhas, tarefa que poderia ser terminada no dia seguinte pelos moços. Os pescadores podiam finalmente descer. Foi servida então uma ceia generosa, de sopa de peixe. A «chora», como lhe chamavam.
- Não a comas - avisou o César. - Porque quem a comer há-de regressar aos bancos.
Aceitei o conselho e não a comi, porque era feita de cabeças de bacalhau e de caras de linguado gigante. E porque não tinha vontade de regressar aos bancos. Esta rotina prolongar-se-ia ainda por seis semanas, e depois disso iríamos rumar à Gronelândia, onde as condições eram bastante piores. Achei que uma viagem para mim bastava."
Allan Villiers in A campanha do Argus


























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