

"Aqui também havia nevoeiro, pesado, frio e cego. Uma vez o pescador António Rodrigues Chalão, um homem competente, que trabalhava perto do Porto, no salva-vidas da barra do Douro, durante o Inverno, ficou perdido durante 5 dias e quase perdemos a esperança dele voltar. Desapareceu no nevoeiro e depois veio mau tempo.
O temporal fustigou durante três dias e depois, outra vez nevoeiro, mas ao quinto dia do seu desaparecimento, o tempo clareou e o António Rodrigues regressou! Regressou sorridente mas teve de ser içado para bordo, no dori, completamente exausto. Todavia, nesse mesmo dia, voltou à faina da pesca.
Conversei com ele acerca da sua experiência. O que teria pensado no seu tão frágil dori? "Rezei"- disse - "Fiz o que pude e depois voltei a rezar e pensei na minha mulher e nos meus sete filhos em Portugal. A bússula estava avariada; foi por isso que o nevoeiro me apanhou. Depois, na tempestade, ancorei e aproava ao vento,usando os remos para manter o dori aproado, em condições de aguentar o tempo".
- "Frequentemente esgotava a água do dori, para me salvar, porque com as vagas, entrava água. Tive medo de que, com aquele rodo, a âncora garrasse, por não ser suficientemente longo e então iria à deriva para longe dos bancos, para dentro do Estreito. Para mim , eu sabia-o, seria o fim".
- " Mas não garrou?"
- "Não. Mas tive de remar muito para me manter aproado às vagas. Improvisei um abrigo com a vela. Comi bacalhau cru e bebia água do nevoeiro, espremendo o boné de lã".
Foi tudo o que consegui do António Rodrigues Chalão, depois de ter remado cinco dias contra a borrasca, para manter aproada uma embarcação de 14 pés (4,20m), acima do Círculo Polar Árctico. A pele da palma das mãos parecia ter sido lixada. Mas teve sorte, por sobreviver e tinha a noção disso. O pequeno cemitério de Holsteinborg, na Gronelândia, tem muitas sepulturas de pescadores portugueses falecidos nos bancos."
Allan Villiers in I Sailed with Portugal's Captains Courageous