quinta-feira, 5 de março de 2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

"Asa Negra"








Parando e, tentando perceber de onde vem o meu gosto pela Ria, pelos grandes espaços, pelos barcos à vela, por momentos únicos que só se vivem lá, no meio dela, a este barco o devo.
Construído a partir de uns planos alemães de um Jollenkreuzer, importados por Francisco Ramada e também proprietário de um exemplar, "Vareiro" de seu nome, mais conhecido pelo "Alemão".
Era pau pra toda a colher, tanto servia para ir ao Cruzeiro fazer boa figura como a fazia também a passear a famelga ao fim de semana. Foi construído no estaleiro de Mestre José da Silva, de Pardilhó, nos anos finais da década de sessenta. A ele lhe devo a descoberta do prazer de fazer vela, do prazer libertador de estar na Ria, de dia ou de noite.
A ele lhe devo ter-me mostrado outra perspectiva, a outra face da moeda. "Vivre pour vivre".
Mas também lhe devo ter-me proporcionado outros momentos inesquecíveis, bons e maus. O balanço é claramente positivo.

terça-feira, 3 de março de 2009

"Prazeres"


O primeiro olhar da janela de manhã
O velho livro de novo encontrado
Rostos animados
Neve, o mudar das estações
O jornal
O cão
A dialéctica
Tomar duche, nadar
Velha música
Sapatos cómodos
Compreender
Música nova
Escrever, plantar
Viajar, cantar
Ser amável.
.
Berthold Brecht.

"Come fly with us.."


Um 49er a voar baixinho..

sábado, 28 de fevereiro de 2009

"Kaimiloa"


"8 de Maio.
Ao amanhecer largamos de novo o pano...
Que esquisito mar! Navegamos ao largo, e o Kaimiloa defende-se às mil maravilhas... É um lindo espectáculo a que não nos podemos subtrair: sentimos aumentar em nós uma admiração cada vez mais respeitosa pelo valente barquinho...
Vagas monstruosas elevam-se às vezes pela pela proa e por detrás, avançando para nós, acompanhadas do surdo ruído do rebentar das suas cristas. A cada momento pensamos que irão passar-nos por cima e submergir-nos. Agarramo-nos com força à cabine... e hup! o Kaimiloa levanta gentilmente o seu traseiro e as monstruosas vagas passam sempre a rugir... deixando apenas alguns borrifos na plataforma!
- Sempre o mesmo barulho para nada, digo eu a Tati.
- Se víssemos isto no cinema, responde o meu companheiro, não nos caberia um feijão frade...
No entanto, uma delas submerge-nos antes do anoitecer... e mesmo na altura em que o mar parece começar a cair... Uma dessas vagas, por acaso menos impressionante do que muitas outras, avança, rebentando como tantas... Sem reflectir, cerro para ela os punhos em ridículo gesto de desafio e grito: - Cala a boca palerma.
Apenas soltei o meu insulto, a vaga pareceu aumentar de volume, rebentou com um ruído furioso e caiu-nos em cima submergindo toda a amurada. Se não tivéssemos a presença de espírito suficiente para nos agarrarmos àquilo que estava à nossa mão, o Kaimiloa seguiria o seu cruzeiro sem equipagem...
- Não devia ter dito isso, censura-me Tati, cuspindo a água salgada que engolira. Nunca se deve insultar o mar!"
.
Eric de Bisschop in Kaimiloa- De Honolulu a Cannes pela Austrália e pelo Cabo, a bordo duma dupla piroga da Polinésia

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

"Suddenly, Last Night"


A noite passada, deitei-me bastante tarde à conta desta senhora e de uma outra igualmente grande, Katherine Hepburn. No silêncio absoluto da casa nessas horas, revi os dois desempenhos fabulosos em " Suddenly, Last Summer". O texto de Tennessee Williams, a realização de Mankiewics, e a interpretação do protagonista masculino Montgomery Clift ajudam ao grande duelo. Aliás, fica-se com a sensação que Monty, com o seu desempenho "low profile", está igualmente fascinado com as prestações femininas. Fica uma fotografia da sensualíssima Elizabeth Taylor, com o famoso fato de banho branco, que tantos constrangimentos causou à personagem no filme e que, acredito, deve ter sido bastante popular entre a assistência masculina nesse final da década de cinquenta.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

"Outras Paragens"










Mais uns quantos cartazes antigos a apelar à viagem, à preferência dos viajantes. Viajar é preciso.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

"Viva o inútil!"


"Foi tudo isto que os participantes retiraram desta regata: a aventura, a evasão, a confiança, uma reflexão sobre si próprios e sobre a vida, um exercício de esforço e de sofrimento, a medida das capacidades, das limitações de cada um, a aprendizagem do medo e da coragem. Tudo isto lhes ficará como aquisição importante pela vida fora.
Insatisfação? Sim, muitos experimentaram certa forma de insatisfação. Entre quase todos, para começar, a de não terem podido permanecer mais tempo nalguns dos locais visitados. Não terem podido deter-se nesses espantosos fiordes da ilha de Etats; nos ancoradouros desolados das ilhas Kerguelen ou Croizet. Alguns sonham já com o regresso àquelas paragens em cruzeiro turístico. Reviverem a fascinação das latitudes austrais, experimentarem a emoção das vagas gigantescas e dos espaços solitários que não há noutro lado, admirarem de novo o voo dos albatrozes, ou sentirem mais uma vez a atracção estética das montanhas de gelo flutuantes dos mares da Antárctida, magia de gelos esculpidos refulgindo em cintilações de azul, diamantes únicos e preciosos que a natureza oferece à audácia dos homens.
Ninguém, nesta volta ao mundo, perdeu o seu tempo. Todos regressam enriquecidos para o resto da vida. Lá longe, porém, três homens foram sacrificados por esse mar que eles amavam, e ao qual muito haviam dado de si. A sua maior razão de viver era a vela, o mar alto, a acção. Todos três eram homens verdadeiramente livres. Para eles , a vida que valia a pena ser vivida era aquela em que se aceita participar até ao risco de a poder perder.
Para todos os companheiros que deixaram Portsmouth naquele dia 8 de Setembro de 1973, rumo a esse desconhecido que se chamava a regata da volta ao mundo, havia, mais forte do que tudo, o fascínio da aventura. Souberam corresponder-lhe. A aventura pagou-lhes a centuplicar.
Nada é tão necessário ao homem como o inútil."

Jean-Michel Barrault in No cabo horn aos vinte anos

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

"N & B"










Fotografias de Patrick Debetencourt

domingo, 22 de fevereiro de 2009

"On the Rocks"


"Avistei-o... Dos bons, mesmo à proa! O coração batia-me no peito, sentia as mãos humedecidas. Mas não tinha dúvidas: ele aí estava, enfiado com a roda de proa, trânslúcido nessa meia luz matinal, impreciso qual medusa em águas límpidas, mas tenebroso como qualquer grande promontório. Era uma cadeia de montanhas com os seus picos agudos arranhando as montanhas, com falésias abruptas, colinas gastas e arredondadas, uma sequência de relevos surpreendentes e geométricos. Era de um branco muito puro na solidão absoluta do azul do céu e do mar. A montanha de gelo continha toda a sabedoria e toda a tristeza do mundo, as suas veias azuis denotavam nobreza e grandiosidade, representavam em si a pureza intocável e eterna. Na sua essência, reúne todo o sol do mundo, toda luminosidade do nosso sistema; conhece as tempestades e ignora-as; conhece os céus cinzentos e mantém-se mais vivo que eles; a sua luz estonteante rompe, sempre, vitoriosa, impõe-se, aterroriza ou afaga, e a montanha enorme deriva ao sabor das correntes, lenta, incansável, pacífica, evitando todo o contacto com as terras civilizadas."
Gérard Janichon
fotografia - Cartier Bresson

"Ooops"


O Governo adverte; "Se conduzir Não Beba".

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

"Falésias praias areais ardentes"


Para deixar-vos tenho o meu orgulho
que para vos deixar não tenho nada
ensinei-vos o mar o verão o julho
o alvoroço da pesca e da alvorada
os pássaros a caça o doce arrulho
do instante que passa e é tudo e é nada.

Para deixar-vos tenho a liberdade
um astro a lucidar dentro do não
o riso e seu esplendor a intensidade
da vida que se dança um só verão
o fulgor dessa breve eternidade
o azul o vento o espaço a solidão.

Para deixar-vos nada que deixar
só um país e as ilhas adjacentes
um rectãngulo inteiro e ainda o mar
as montanhas os rios e afluentes
as índias que ficaram por achar
falésias praias areais ardentes.

Para deixar-vos tenho o que não tenho
que para vos deixar não tenho mais
do que a escrita da vida e o eco estranho
de ritmos sons e signos e sinais
metáforas que têm o tamanho
do mundo que vos deixo. E nada mais.

Manuel Alegre
fotografia- Zacarias da Mata

"Beside Seaside"



Toni Frissell
António Carneiro


António Carneiro

Snapshots of Portuguese coastal life.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

"Vouguinha"






António Carvalho, o homem que está a fazer uma réplica do Almagrande, enviou-me ontem estas fotografias para mostrar o andamento da obra. Acho notável o cuidado com que está a ser feito, o respeito pelo desenho, a utilização de madeiras iguais ao original e pela técnica de construção.
Parabéns ao Artista.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

"Why Not"


Health, South Wind, Books, Old Trees, a Boat, a Friend.
Ralph Waldo Emerson

sábado, 14 de fevereiro de 2009

"Les Nuits"


O "Navegar é preciso" termina hoje, um ano depois.
Às Almas que colaboraram comigo, às que conheci por aqui e às que gostaria de ter conhecido, aquele abraço. Bons Ventos.
Almagrande
foto- Dorothea Lange

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

"Portugal's Captains Courageous"




"Aqui também havia nevoeiro, pesado, frio e cego. Uma vez o pescador António Rodrigues Chalão, um homem competente, que trabalhava perto do Porto, no salva-vidas da barra do Douro, durante o Inverno, ficou perdido durante 5 dias e quase perdemos a esperança dele voltar. Desapareceu no nevoeiro e depois veio mau tempo.
O temporal fustigou durante três dias e depois, outra vez nevoeiro, mas ao quinto dia do seu desaparecimento, o tempo clareou e o António Rodrigues regressou! Regressou sorridente mas teve de ser içado para bordo, no dori, completamente exausto. Todavia, nesse mesmo dia, voltou à faina da pesca.
Conversei com ele acerca da sua experiência. O que teria pensado no seu tão frágil dori? "Rezei"- disse - "Fiz o que pude e depois voltei a rezar e pensei na minha mulher e nos meus sete filhos em Portugal. A bússula estava avariada; foi por isso que o nevoeiro me apanhou. Depois, na tempestade, ancorei e aproava ao vento,usando os remos para manter o dori aproado, em condições de aguentar o tempo".
- "Frequentemente esgotava a água do dori, para me salvar, porque com as vagas, entrava água. Tive medo de que, com aquele rodo, a âncora garrasse, por não ser suficientemente longo e então iria à deriva para longe dos bancos, para dentro do Estreito. Para mim , eu sabia-o, seria o fim".
- " Mas não garrou?"
- "Não. Mas tive de remar muito para me manter aproado às vagas. Improvisei um abrigo com a vela. Comi bacalhau cru e bebia água do nevoeiro, espremendo o boné de lã".
Foi tudo o que consegui do António Rodrigues Chalão, depois de ter remado cinco dias contra a borrasca, para manter aproada uma embarcação de 14 pés (4,20m), acima do Círculo Polar Árctico. A pele da palma das mãos parecia ter sido lixada. Mas teve sorte, por sobreviver e tinha a noção disso. O pequeno cemitério de Holsteinborg, na Gronelândia, tem muitas sepulturas de pescadores portugueses falecidos nos bancos."

Allan Villiers in I Sailed with Portugal's Captains Courageous

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009