"Foi tudo isto que os participantes retiraram desta regata: a aventura, a evasão, a confiança, uma reflexão sobre si próprios e sobre a vida, um exercício de esforço e de sofrimento, a medida das capacidades, das limitações de cada um, a aprendizagem do medo e da coragem. Tudo isto lhes ficará como aquisição importante pela vida fora.
Insatisfação? Sim, muitos experimentaram certa forma de insatisfação. Entre quase todos, para começar, a de não terem podido permanecer mais tempo nalguns dos locais visitados. Não terem podido deter-se nesses espantosos fiordes da ilha de Etats; nos ancoradouros desolados das ilhas Kerguelen ou Croizet. Alguns sonham já com o regresso àquelas paragens em cruzeiro turístico. Reviverem a fascinação das latitudes austrais, experimentarem a emoção das vagas gigantescas e dos espaços solitários que não há noutro lado, admirarem de novo o voo dos albatrozes, ou sentirem mais uma vez a atracção estética das montanhas de gelo flutuantes dos mares da Antárctida, magia de gelos esculpidos refulgindo em cintilações de azul, diamantes únicos e preciosos que a natureza oferece à audácia dos homens.
Ninguém, nesta volta ao mundo, perdeu o seu tempo. Todos regressam enriquecidos para o resto da vida. Lá longe, porém, três homens foram sacrificados por esse mar que eles amavam, e ao qual muito haviam dado de si. A sua maior razão de viver era a vela, o mar alto, a acção. Todos três eram homens verdadeiramente livres. Para eles , a vida que valia a pena ser vivida era aquela em que se aceita participar até ao risco de a poder perder.
Para todos os companheiros que deixaram Portsmouth naquele dia 8 de Setembro de 1973, rumo a esse desconhecido que se chamava a regata da volta ao mundo, havia, mais forte do que tudo, o fascínio da aventura. Souberam corresponder-lhe. A aventura pagou-lhes a centuplicar.
Nada é tão necessário ao homem como o inútil."
Jean-Michel Barrault in No cabo horn aos vinte anos



















































