terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

"Viva o inútil!"


"Foi tudo isto que os participantes retiraram desta regata: a aventura, a evasão, a confiança, uma reflexão sobre si próprios e sobre a vida, um exercício de esforço e de sofrimento, a medida das capacidades, das limitações de cada um, a aprendizagem do medo e da coragem. Tudo isto lhes ficará como aquisição importante pela vida fora.
Insatisfação? Sim, muitos experimentaram certa forma de insatisfação. Entre quase todos, para começar, a de não terem podido permanecer mais tempo nalguns dos locais visitados. Não terem podido deter-se nesses espantosos fiordes da ilha de Etats; nos ancoradouros desolados das ilhas Kerguelen ou Croizet. Alguns sonham já com o regresso àquelas paragens em cruzeiro turístico. Reviverem a fascinação das latitudes austrais, experimentarem a emoção das vagas gigantescas e dos espaços solitários que não há noutro lado, admirarem de novo o voo dos albatrozes, ou sentirem mais uma vez a atracção estética das montanhas de gelo flutuantes dos mares da Antárctida, magia de gelos esculpidos refulgindo em cintilações de azul, diamantes únicos e preciosos que a natureza oferece à audácia dos homens.
Ninguém, nesta volta ao mundo, perdeu o seu tempo. Todos regressam enriquecidos para o resto da vida. Lá longe, porém, três homens foram sacrificados por esse mar que eles amavam, e ao qual muito haviam dado de si. A sua maior razão de viver era a vela, o mar alto, a acção. Todos três eram homens verdadeiramente livres. Para eles , a vida que valia a pena ser vivida era aquela em que se aceita participar até ao risco de a poder perder.
Para todos os companheiros que deixaram Portsmouth naquele dia 8 de Setembro de 1973, rumo a esse desconhecido que se chamava a regata da volta ao mundo, havia, mais forte do que tudo, o fascínio da aventura. Souberam corresponder-lhe. A aventura pagou-lhes a centuplicar.
Nada é tão necessário ao homem como o inútil."

Jean-Michel Barrault in No cabo horn aos vinte anos

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

"N & B"










Fotografias de Patrick Debetencourt

domingo, 22 de fevereiro de 2009

"On the Rocks"


"Avistei-o... Dos bons, mesmo à proa! O coração batia-me no peito, sentia as mãos humedecidas. Mas não tinha dúvidas: ele aí estava, enfiado com a roda de proa, trânslúcido nessa meia luz matinal, impreciso qual medusa em águas límpidas, mas tenebroso como qualquer grande promontório. Era uma cadeia de montanhas com os seus picos agudos arranhando as montanhas, com falésias abruptas, colinas gastas e arredondadas, uma sequência de relevos surpreendentes e geométricos. Era de um branco muito puro na solidão absoluta do azul do céu e do mar. A montanha de gelo continha toda a sabedoria e toda a tristeza do mundo, as suas veias azuis denotavam nobreza e grandiosidade, representavam em si a pureza intocável e eterna. Na sua essência, reúne todo o sol do mundo, toda luminosidade do nosso sistema; conhece as tempestades e ignora-as; conhece os céus cinzentos e mantém-se mais vivo que eles; a sua luz estonteante rompe, sempre, vitoriosa, impõe-se, aterroriza ou afaga, e a montanha enorme deriva ao sabor das correntes, lenta, incansável, pacífica, evitando todo o contacto com as terras civilizadas."
Gérard Janichon
fotografia - Cartier Bresson

"Ooops"


O Governo adverte; "Se conduzir Não Beba".

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

"Falésias praias areais ardentes"


Para deixar-vos tenho o meu orgulho
que para vos deixar não tenho nada
ensinei-vos o mar o verão o julho
o alvoroço da pesca e da alvorada
os pássaros a caça o doce arrulho
do instante que passa e é tudo e é nada.

Para deixar-vos tenho a liberdade
um astro a lucidar dentro do não
o riso e seu esplendor a intensidade
da vida que se dança um só verão
o fulgor dessa breve eternidade
o azul o vento o espaço a solidão.

Para deixar-vos nada que deixar
só um país e as ilhas adjacentes
um rectãngulo inteiro e ainda o mar
as montanhas os rios e afluentes
as índias que ficaram por achar
falésias praias areais ardentes.

Para deixar-vos tenho o que não tenho
que para vos deixar não tenho mais
do que a escrita da vida e o eco estranho
de ritmos sons e signos e sinais
metáforas que têm o tamanho
do mundo que vos deixo. E nada mais.

Manuel Alegre
fotografia- Zacarias da Mata

"Beside Seaside"



Toni Frissell
António Carneiro


António Carneiro

Snapshots of Portuguese coastal life.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

"Vouguinha"






António Carvalho, o homem que está a fazer uma réplica do Almagrande, enviou-me ontem estas fotografias para mostrar o andamento da obra. Acho notável o cuidado com que está a ser feito, o respeito pelo desenho, a utilização de madeiras iguais ao original e pela técnica de construção.
Parabéns ao Artista.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

"Why Not"


Health, South Wind, Books, Old Trees, a Boat, a Friend.
Ralph Waldo Emerson

sábado, 14 de fevereiro de 2009

"Les Nuits"


O "Navegar é preciso" termina hoje, um ano depois.
Às Almas que colaboraram comigo, às que conheci por aqui e às que gostaria de ter conhecido, aquele abraço. Bons Ventos.
Almagrande
foto- Dorothea Lange

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

"Portugal's Captains Courageous"




"Aqui também havia nevoeiro, pesado, frio e cego. Uma vez o pescador António Rodrigues Chalão, um homem competente, que trabalhava perto do Porto, no salva-vidas da barra do Douro, durante o Inverno, ficou perdido durante 5 dias e quase perdemos a esperança dele voltar. Desapareceu no nevoeiro e depois veio mau tempo.
O temporal fustigou durante três dias e depois, outra vez nevoeiro, mas ao quinto dia do seu desaparecimento, o tempo clareou e o António Rodrigues regressou! Regressou sorridente mas teve de ser içado para bordo, no dori, completamente exausto. Todavia, nesse mesmo dia, voltou à faina da pesca.
Conversei com ele acerca da sua experiência. O que teria pensado no seu tão frágil dori? "Rezei"- disse - "Fiz o que pude e depois voltei a rezar e pensei na minha mulher e nos meus sete filhos em Portugal. A bússula estava avariada; foi por isso que o nevoeiro me apanhou. Depois, na tempestade, ancorei e aproava ao vento,usando os remos para manter o dori aproado, em condições de aguentar o tempo".
- "Frequentemente esgotava a água do dori, para me salvar, porque com as vagas, entrava água. Tive medo de que, com aquele rodo, a âncora garrasse, por não ser suficientemente longo e então iria à deriva para longe dos bancos, para dentro do Estreito. Para mim , eu sabia-o, seria o fim".
- " Mas não garrou?"
- "Não. Mas tive de remar muito para me manter aproado às vagas. Improvisei um abrigo com a vela. Comi bacalhau cru e bebia água do nevoeiro, espremendo o boné de lã".
Foi tudo o que consegui do António Rodrigues Chalão, depois de ter remado cinco dias contra a borrasca, para manter aproada uma embarcação de 14 pés (4,20m), acima do Círculo Polar Árctico. A pele da palma das mãos parecia ter sido lixada. Mas teve sorte, por sobreviver e tinha a noção disso. O pequeno cemitério de Holsteinborg, na Gronelândia, tem muitas sepulturas de pescadores portugueses falecidos nos bancos."

Allan Villiers in I Sailed with Portugal's Captains Courageous

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

sábado, 7 de fevereiro de 2009

"Os Homens da Falésia"

Pesca e apanha de percebes na praia da Atalaia. Realizado por Helder Mendes nos anos sessenta

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

"Twelves"










Regata de 12mR em Kiel, fotografada de uma perspectiva menos usual.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

"Kon-Tiki"

"Ás vezes também saíamos no pequeno bote de borracha para ver que tal eramos à noite. De todos os lados erguiam-se os paredões negros das ondas, e miríades de cintilantes estrelas tropicais provocavam um frouxo reflexo dos plânctones na água. O mundo era simples: estrelas na escuridão. Se o ano em que estávamos era 1947 d.C. ou 1947 a.C tornava-se sùbitamente coisa sem importância. Estávamos vivos e sentíamo-lo em plena intensidade. Compreendíamos que a vida também fora cheia para os homens que existiram antes da técnica, mais cheia e até mais rica a muitos respeitos do que a vida do homem moderno. O tempo e a evolução , de certo modo, cessavam de existir; tudo o que era real e tudo o que oferecia importância era o mesmo hoje que sempre tinha sido e que sempre seria; nós estávamos, engolidos pela medida comum absoluta da História, escuridão intérmina e ininterrupta sob um cardume de estrelas. Na nossa frente,nas trevas, a Kon-Tiki erguia-se de entre as vagas para de novo mergulhar por detrás de negras massas de água, que se elevavam como torreões entre ela e nós. À claridade do luar havia uma singular atmosfera em volta da jangada. Sólidos toros de pau franjados de algas, o negríssimo contorno quadrado de uma vela que fazia lembrar as dos velhos vikings, uma cerdosa choupana de bambu com a luz amarela de uma lâmpada de parafina na parte posterior - aquele conjunto trazia à mente antes a representação de um conto de fadas do que a pura realidade. De vez em quando, a jangada desaparecia, completamente oculta pelas ondas negras; depois tornava a levantar-se e recortava-se em silhueta, contra as estrelas, enquanto a água faiscante escorria dos trocos."
Thor Heyerdahl in A Expedição da Kon-Tiki

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

"Outras Navegações"

Toni Frissell - 1947



John Collier - 1942



Harris & Ewing



John Vachon - 1942



Josef Hoflehner


Cinco fotografias avulsas de outros tantos autores, de que gostei bastante.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

"Blow me down"

The North wind blew on Monday
As the East wind got the flu
The West wind blew on Tuesday
As the South wind never knew

The North East wind had Wednesday
As the South West wasn’t chuffed
The North West blew on Thursday
As the South East hardly puffed

The East and West blew Friday
As the others had a rest
The North and South blew Saturday
As the weekends were the best

The lot of them had Sunday
As the winds turned into storm
The whole of them had Monday off
As the week got back to norm

David Threadgold

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

domingo, 1 de fevereiro de 2009

"Stars"








Imagens antigas de um barco que continua a apaixonar os grande nomes da vela a nível mundial.
Extremamente exigente para as tripulações pela sua gande área vélica, proporciona sempre imagens de grande beleza. Faz parte dos Jogos Olímpicos desde 1932 e foi o único barco que foi readmitido após a classe ter sido excluída nos Jogos de 1976.
comp.-6,9m larg.-1,7m área vélica - 26,1m2

"Os Pescadores de Dori"








"Quando há vento e cachão os doris saltam com violência, dão esticões na linha, enchem-se de água, mas o trabalho tem de continuar. E o corpo retesado pelo esforço, os músculos agora crivados de dores agudas da fadiga, o suor escorrendo em bica e misturando-se com a espuma salgada, o pescador vai alando sempre, mais um anzol, mais outro, mais outro ainda... Se a pesca é boa, o próprio peixe tendendo a boiar ajuda a levantar o aparelho; se o peixe é escasso o desânimo que provoca a vista dos anzóis limpos torna mais dura a tarefa.
Por fim surge o último anzol (trazendo porventura o último bacalhau...), o grapolim é recolhido, mas o pescador imediatamente inicia nova tarefa, sem um momento sequer de descanso. Procura outro local para de novo lançar a linha, e então toda a faina se repete, ou regressa ao navio se vê já içada a bandeira que é sinal de chamada.
Nos dias de calma, ou com vento contrário, o pescador tem por vezes que remar longos períodos, lutando contra o cachão desencontrado, arrastando penosamente um dori que teve a sorte de carregar. Nos dias de vento favorável pode enfim descansar um pouco, enquanto a aragem benfazeja se encarrega de o transportar, juntamente com a preciosa carga, fruto de um dia inteiro de labor. Mas bem fraco descanso é aquele - timonar um bote minúsculo, frágil e sobrecarregado, que o vento empurra com rudeza sobre um mar encrespado. O mais pequeno descuido, uma rajada que não foi sentida a tempo, um cachão mais cavado que se desfaz em espuma, e a borda do dori mergulha, a água gélida invade-o num instante, afunda-o, fá-lo desaparecer!"
Eduardo Lopes in Os Pescadores de Dori
Pinturas de Jack Lorimer Gray