domingo, 28 de setembro de 2008
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
"Boys with toys"
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
"O cão andaluz"
"Nas férias, aranjara emprego no Clube Naval, onde cuidava dos barcos trabalhando duramente, manobrando o guincho, passando os motores por água doce, arrumando os reboques na garagem. O presidente do Clube, pai de um seu amigo, tratava-o com simpatia, e mestre Zé, que lhe dava ordens num trato rude, era leal e justo.Nos dias de folga, aceitava o convite do Hélder e do Juca para uma volta no Andorinha do Clube. O velho barco de madeira, com velas de lona, cortava, como uma lâmina, a água espelhada das manhãs, mostrando-se firme na nortada, enfrentando ondas e rajadas com a segurança de um velho marinheiro.
Fora descobrindo a beleza da ria nos longos bordos em frente a S.Jacinto, espraiando o olhar pelas margens semeadas de pinheiros, que continuavam, num fio verde, até ao bico do Moranzel, atracando no Bar do Francês ou no café da Torreira, para um intervalo de descanso. No regresso, quando o vento caía e o céu se enchia de púrpura em poentes de calmaria, traziam o barco à sirga, puxando-o da margem, arranhando os pés no junco por onde fugiam ratazanas. Nesses dias, quando a sorte lhes sorria, apanhavam boleia da lancha da carreira, com a ajuda dos passageiros que pressionavam o piloto, contrariado, a passar-lhes um cabo de reboque.
Aos poucos, foi-se tornando um conhecedor de ventos e marés, hábil em bolinas e cambadelas, velejador cobiçado como proa nas regatas. E no Verão de 65, no Cruzeiro da Ria, conhecera Elisa Medina. A meio de Agosto."
Jorge Seabra in "O cão andaluz"
terça-feira, 23 de setembro de 2008
"Coisa Amar"
Contar-te longamente as perigosascoisas do mar.Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
Manuel Alegre
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
"Ria"
domingo, 21 de setembro de 2008
"Figueira da Foz - Aveiro"
A noite da véspera foi passada a bordo, por toda a cabina são aínda visíveis recordações de viagens do antigo proprietário, placas de algumas homenagens que lhe prestaram e que ele, premeditadamente ou não, deixou no barco. Ali fazem mais sentido, um barco com aquele historial deve ostentar os galões.
O dia amanheceu a anunciar chuva e com um ventito Leste que ameaçava desaparecer, e assim foi, depois de uma primeira parte feita a motor até às imediações da linha de largada, quando precisámos dele, ele quase que se recusava a colaborar. A manhã foi assim, vento muito fraco e sempre com tendência a diminuir.
Aproximava-se a hora do almoço e a total ausência de vento levava alguns dos competidores a renunciar à competição e a ligar o motor, enquanto outros aproveitavam para ligar o fogão, anunciando pelo rádio as respectivas ementas e cartas de vinhos..decididamente trata-se bem esta rapaziada da Avela.
Estavamos nós também a tratar do corpo quando, sem avisar, entra um vento simpático de Oeste que ainda fez esvoaçar uns copos e ao que consta, um prato de salada numa das embarcações que mais leva a sério esta questão da alimentação a bordo, a forma como hidratam o corpo é notável!
O vento foi crescendo e até Aveiro foi uma beleza, nem a chuva que entretanto apareceu conseguiu estragar a festa.
Depois de uma entrada na barra sem sobressaltos, os barcos reuniram-se para um desfile e sentida homenagem aos "TALL SHIPS", enormes, majestosos, magníficos.
Os participantes da regata iam passando em comboio, com as tripulações a admirarem estes colossos, buzinando repetidamente, um espectáculo dentro de outro. De repente, sem que alguém esperasse, o nosso "CREOULA" responde-nos na mesma moeda, amplificada à medida do seu tamanho... Lindo!
A caminho da sede da Avela aínda nos cruzámos com um daqueles moliceiros castrados, sem mastro, sem velas e sem ponta da proa, até para ser barco é preciso ter sorte..
Seguiu-se a amarração e barrela das embarcações e quanto a mim, um cafézinho sonhado desde a Figueira.
Claro que os organizadores não deixaram os créditos por mãos alheias e tinham um paladoso jantar para os participantes, comido e bebido com gosto por todos.
Após a entrega de prémios, para alguns o fim de festa, para outros alonga-se a conversa e para outros aínda, é tempo de merecido descanço a pensar já no regresso no dia seguinte à Figueira da Foz. Bela jornada de vela, ao Comandante Cândido e à Inês o meu agradecimento.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
"Ironias do destino"
"Quanto a mim julgo que não se pode sair de borda desde que se vá com atenção. Se nos deslocamentos e nas manobras, houver o cuidado de ter sempre à mão uma coisa a que se agarrar, não creio que um vagalhão obrigue a largá-la. Ao governo, porém, está-se mal escorado. Quando, de repente, o adernamento é grande chega-se a ficar quase na vertical e a cana do leme não é um ponto de apoio. Em muitos barcos até, um grande adernamento brusco pode acompanhar-se de um safanão da cana do leme que pode derrubar-vos. É-se volteado pela cana do leme e cai-se no mar por sotavento. Se se teve a sorte de não largar o leme, pode talvez subir-se para bordo. No caso emergente, é muito mais provável que o larguemos. Nas águas, muitas vezes frigidas, do Atântico Norte, quase que não se deve ter tempo para refletir: morre-se de frio muito rápidamente. Esta perspectiva seduz-me o menos possível confio na volta do tirador da escota bem dada em torno dos meus rins."Eric Tabarly in "TABARLY- o navegador solitário"
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
"Mar a Preto e Branco"
Excerto de um documentário sobre Augusto Cabrita, intitulado "Mar a Preto e Branco".
terça-feira, 16 de setembro de 2008
"Flamingos na Ria"
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
"A Tourada do Mar"


"Uns homens têm na mão direita a ganchorra curta e afiada, presa ao pulso pela alça, e outros, armados de um bicheiro mais comprido, só esperam que o atum comece a saltar para o chegarem aos barcos. Agita-se a água...Vêem-se os grande dorsos reluzentes e os rabos que chapinham... Espetam o peixe. Para não caírem à água, deitam a mão esquerda à corda amarrada ao pau de entrevela, curvam-se e fisgam-nos pela cabeça. O peixe resiste e quer fugir: sentindo-se preso, ergue-se, apoiado na cauda e é esse movimento de recuo que ajuda o homem a metê-lo para dentro da caverna, largando logo da mão o bicheiro, que lhe fica suspenso do pulso pela alça. Baixa-se o homem, ergue-se logo...Os barcos estão cheios de peles luzidias e de manchas gordurosas de sangue. São bichos enormes e escorregadios, de grossa de pele azulada, que batem pancadas sobre pancadas com o rabo. A gritaria aumenta – Eh! Eh!... É uma mixórdia que me cansa. Só vejo manchas sobre manchas, sobrepostas, a cor e o movimento, a cor dos homens, a cor dos grandes peixes que se debatem e morrem e a agitação que se precipita e acelera os gestos confundidos. E sobre tudo isto um grito, um grito de triunfo, o grito de matança que explode numa alegria feroz, a alegria primitiva: - Eh! Eh!... num quadro imutável, todo vermelho e negro... Cheira a açougue. A água tinge-se de sangue, a água pegajosa encharca os barcos. Misturam-se as cores e as peles escorregadias... A carnificina enfarta e enjoa..."terça-feira, 9 de setembro de 2008
"Regata Cenário"
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
"A Torreira e o S.Paio"
"Se calha tempo bom, céu azul, sol quente, ar levemente agitado, não há passeio fluvial que rivalize com este que se dá na ida para o São Paio.De Mira ao Furadouro, por toda a orla dessa vasta laguna que é a Ria de Aveiro, seguem de velas enfunadas e enfeitadas com galhardetes, flâmulas, bandeiras e mil variados panos muito garridos - flutuando ao vento, tremeluzindo na água, as cambiantes como em caleidoscópio - centenas e centenas de barcos moliceiros e mercanteis.
Partem de Mira, Costa Nova, Barra, S.Jacinto e Furadouro, modestíssimas praias ribeirinhas, homens e mulheres de todas as idades, pescadores na maioria, que levam os seus trajes domingueiros (heterógeneos, mas curiosos!) e a alma como pura alegria, sã expansividade, para saltar nas areias da Torreira, saltar infantilmente, mas saltar de vontade, rir e cantar e beber à farta, comer um pouco mais e melhor, comer desafogadamente, reinar, gosar a vida no que ela tem de espiritual e material, de poético e prosaico.
De Ílhavo, Aveiro, Estarreja, Murtosa e Ovar acorrem pessoas de todas as classes, que vão ao São Paio para verem a festa e se refastelarem nas areias contemplando a vastidão do Mar e admirando a Ria, sempre com novos encantos, cada vez mais bela!
E é vê-los então, a 7 e 8 de Setembro, encobertos pelas dunas - vulgo, cordeirinhos - ou sobranceiros a elas, como se juntam aos magotes, às rachadas, piturescos e animosos, de corpo e alma, em dilatada alegria, sacrificando o interesse; prestando um culto franco à vida!...
Ali se nota o fervor religioso, o fanatismo dos velhos que algum dia temeram as maleitas - sezões! - e, agora, livres delas, trazem oferendas ao Santo que os agraciou.
Surpreende-se a irreliogisidade dos novos, que tomam a festa como foco de diversões, e dão largas aos instintos mais soêzes, cevando-os em gozo irreverente, maligno, que lhes avilta a alma e arruína o corpo.
Encontram-se, na sua quase pureza nativa, no seu maior encanto, primores de arte rústica, revelada na forma, pintura e dísticos das embarcações, nos cantares do povo, na música das violas, pífaros e harmónios, nas danças regionais, chulas mas admiráveis, dignas da maior atenção, na procissão com os seus anjinhos de face tisnada e pé descalço, e até nas armações do arraial, grosseiras e ao mesmo tempo graciosas.
Tipos curiosíssimos, bêbados, embriagados, toldados de vinho e alegria; almas sentimentais, que, por estranhos mistérios, ficam tristes; tanto mais tristes quanto maior vai a alegria a seu lado; caras singulares, tipo único, mas sem pinturas! - formosas na sua rusticidade, corpo vigoroso de trabalhador, e indumentária velha, antiquíssima, desencantada naquele dia « que será o derradeiro das idas ao São Paio»; fazem desta festa um precioso manancial de motivos artísticos! Mas nem os poetas, nem os amigos do folclore, nem os pintores, nenhuns desses artistas e devotos da arte, tantas vezes tão pobres de originalidade, e tantos outros falhos de valor, somente por falta de imaginação, nem uns nem outros se entregam à exploração de mina tão rica!...
E a Comissão de Turismo, que tanto promete, e tanto poderia fazer, essa também não toma a seu cargo uma propaganda intensa da Ria deAveiro e do São Paio da Torreira, local mais característico e mais belo destes sítios...
Pobreza de iniciativas!...exiguidade de gente esforçada!...mina soberba, que ficará desprezada!
E, contudo, não há do Norte ao Sul, da Espanha ao Mar, praia e arraial mais ricos de originalidade, de mais característicos e mais encantadores do que a Torreira e o São Paio."
Dr. Joaquim Rodrigues da Silva
Retirado do livro "Um santo lavado com vinho"-Sérgio Paulo Silva
Gravura- Zé Penicheiro
sábado, 6 de setembro de 2008
"Romaria dos Pescadores"

sexta-feira, 5 de setembro de 2008
"Mais coisa menos coisa"
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
"Stromboli"


"Vougas-1948"
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
domingo, 31 de agosto de 2008
"Vito Dumas"




No dia 8 de agosto de 1943, Vito Dumas é recebido em Buenos Aires como héroi, acabava de dar a volta ao mundo, rondando os três principais cabos. Partira um ano e um mês antes, a bordo do LEGH II, sigla eleita por Dumas como lema: Lucha, Entereza, Hombría, Grandeza. No pequeno barco de 9,5m, parte em direção à Cidade do Cabo, depois Wellington, Valparaíso, Mar da Prata e finalmente Buenos Aires, deixando o Horn pelas costas. Não foi esta, nem a primeira nem a última das suas grandes viagens, em 1931 tinha já atravessado o Atlântico em solitário, entre França e a Argentina e em 1945 faz uma dupla travessia, passando por Montevideu, Punta del Este, Rio de Janeiro, Havana, Nova Iorque, Açores, Canárias, Cabo Verde e regressando a Buenos Aires, 234 dias depois tendo percorrido 17.045 milhas no inseparável LEGH II. A sua última grande aventura seria em 1955, sempre a solo, em que se propõe a fazer as 7.100 milhas que separam Buenos Aires de Nova Iorque numa só tirada, demoraria 117 dias. Continua a ser considerado por muitos o maior navegador solitário de sempre.
Fonte-www.navegantevitodumas.com.ar
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
"Auto-construção"
" Sim, sim, é verdade: há muitos anos que o meu antigo cunhado Eugénio foi comigo à pesca e viu como eu apanhava enguias à fisga (às cegas). Há quanto tempo te não vejo, rapaz! Vai daqui um abraço. Depois levei uma data de vêzes o teu filho, e meu sobrinho, Francisco com quem tive tardes inolvidáveis. Numa delas estavamos ao tim-tim entre a Torreira e a pousada e nesse dia a ria estava infestada de novos-ricos com lanchas potentes que não respeitavam nada nem ninguém. Passavam a duzentos à hora apesar de se ver a léguas o meu barco com uma criança dentro. Outros, também com motores avantajados, andavam para baixo e para cima ao corrico e com o mesmo comportamento. O meu barco, coitado, bailava que tinha o diabo e, eu ali com o miúdo, depressa me enfadei e comecei a tratar aquela malta pelos nomes próprios, à moda da minha terra, como se os conhecesse há muito: " cabrão" " seus filhos da puta"... Lá iamos tirando o nosso robalito e aguentando até que surge uma lancha em alta velocidade com um casal já idoso que, talvez por notarem a criança, abrandaram e passaram por nós em velocidade muito reduzida. Fiz-lhes um gesto (de agradecimento) mas não lhes disse nada, silêncio esse que o miúdo estranhou e o levou a esganiçar : " Seus filhos da puta" ...Adiante. À Sra. D. Ana Maria Lopes, que não tenho o prazer de conhecer, um bem haja antecipado por estar a fazer um trabalho sobre o mestre Arnaldo. Penso que pouquinho mas poderei dar uma ajuda. Quando tiver o trabalho feito, p.f. dê-me notícias. O Dr. Alvaro Garrido ou aqui o Marco localizam-me em segundos.
Finalmente o também meu antigo cunhado e amigo de sempre João Fernando Veiga. Um abraço amigo também. Aqui vai o Esganagatos a navegar, numa brincadeira, no rio Antuã. Eu estou sentado na proa e o que tenho na mão é um galricho cheio.....de carapaus. Foi feito pelo meu sogro, José Neto, em tola e contraplacado marítimo. Tenho outro, também feito por ele e com os mesmos materiais mas muito maior, esse sim já próprio para andar pela ria larga. Comprei-o ao meu cunhado Manel que se queria desfazer dele e agora são ambos inegociáveis. Meu sogro fez maravilhas em e com a madeira (veja-se o tecto da igreja de S.Tiago, Estarreja) mas não era carpinteiro naval. Era um grande apaixonado da pesca das enguias e naturalmente o livro que escrevi sobre as enguias dediquei-lho e não prescindi dele na urdidura. Um dia ( ai há quantos anos!) fomos caçar rolas para a mata de S.Jacinto nos limites norte do que é hoje a reserva natural. Num telheiro estava um barquinho a que ele achou graça. Pegou-lhe e disse-me " Já viste como isto é leve? Qualquer pessoa sózinha o carrega e vai pescar em qualquer canto. Que jeitoso para ir ao candeio!". Tirou medidas e não tardou que tivesse feito uma réplica. Só que, metido à água, funcionava mal, emperrava. Modificou-o conforme a sua ideia e foi logo outra loiça. O producto acabado é isto que aqui está. Aos 70 e tal anos metia sem ajuda o barquinho na sua velha peugeot de caixa aberta e tanto ia pescar para Pardilhó como para Canelas ou Válega. E isto quase todos os dias. Como eu escrevi nesse tal meu livro, as minhocas do seu minhoqueiro eram muito saborosas e onde ele aparecia logo estragava o fieiro dos outros mesmo que já lá estivessem de véspera. Claro, isso era num tempo em que era possível fazer e registar a auto-construção. Agora as complicações são tantas que mais vale estar quieto. As novas leis são castradoras de tudo e de todos. Quem quizer fazer uma piroga deverá preferencialmente ir para a Amazónia. Se teimar em cá ficar, então terá que fazer barcos moliceiros, a motor e com retrete a bordo... Pronto. Já vos aborreci que chegasse e isto não é bem a minha àrea. Cá virei, de longe em longe, quando me aparecer alguma coisa com que possa ajudar o Marco a fazer singrar este seu interessante blog. Um abraço para todos."
Texto e fotografia- Sérgio Paulo Silva
"Mar Santo"
" A Lua deu chuva, uma chuva em bátegas grossas, que desabavam como dilúvios. Mas cada aberta de sol era uma ressurreição: o céu azul, os telhados de um vermelho quente e, para os lados da terra, os campos e os montes mais verdes.O mar continuava o mesmo. Só os barcos do carapau podiam sair, que na borda a rebentação das ondas amainava. Ao largo, estava tudo branco de carneiros e o horizonte tapado por uma parede que ameaçava.
A puxar as redes, filas negras arrastavam-se pela praia acima - homens e mulheres em farrapos, já sem poderem arrancar os pés enterrados na areia, agarradas aos ombros as cordas que saíam do mar.
À frente das casas apertadas umas contra as outras, a todo o comprimento da praia, o paredão estava negro de gente a ver o mar. Outros barcos lançavam redes no mesmo sítio donde aquelas íam sair.
Rolos de nuvens brancas fugíam no céu azul, a querer puxar bom tempo. E em todos os olhos havia uma esperança, que o sudoeste tanto é sinal de que vai demorar o mau tempo, como é o vento que tráz o carapau à borda.
Desde o romper da madrugada que as companhas do arrasto andavam na faina. Era a gente mais pobre, que vivia para o sul da povoação. E nada: uns montinhos de carapau que cabiam num avental.
- Andam fartos de coar o mar! - murmurou, numa voz para dentro, uma mulher que passava."
in Mar Santo - Branquinho da Fonseca
Fotografia- Eduardo Gageiro
terça-feira, 26 de agosto de 2008
"Outros Barcos"
" Conforme ontem prometido:Esta fotografia é gémea duma que publicitei no meu livro Um Santo Lavado com Vinho. Para que conste: houve há muitos anos um estaleiro naval no esteiro de Salreu. Dos Garridos. Faziam bateiras essencialmente, de tamanhos e configuração diversa para os trabalhos agrícolas ( juncos e canízias, movimentação de gados...). Em Canelas sobressaiu o mestre Arnaldo- aqui à esquerda, de chapéu - no mesmo mister. O último dos " Garridos"ainda vivo, depois de um período longo na Venezuela, regressou. E, como quem sabe nunca esquece, meteu mãos à obra a recuperar uma dessas bateiras.Ei-lo aqui de camisa branca desafiando o fotógrafo. Penso que os estudiosos deveriam ir até ao esteiro de Salreu conversar com ele e registar. A CM, sobretudo, devia destacar pessoas da sua Casa da Cultura para isso mesmo. Quanto ao mestre Arnaldo, já não é vivo. Mas terá família, amigos...questionando (a aldeia é pequena) talvez se conseguissem algumas fotografias. E, por falar nisso, quando voltares a Pardilhó, tu ou alguém que possas envolver, deviam filmar o estaleiro do Zé Pitarma e do Diniz. A câmara ( quem dera ! ) não captará os cheiros de madeiras e vernizes mas reterá o resto. Sobretudo demorem a câmara nas mãos desses artistas, vejam como eles moldam os barcos como se acariciassem as águas. Façam-no depressa mas sem pressas. Enquanto é possível. No anterior, como neste, se para além das fotos quiseres também publicar directamente o meu paleio, podes fazê-lo. Quando tiver mais, voltarei. Um abraço. "
Texto e fotografia- Sérgio Paulo Silva


















