
Li ou ouvi algures que a primeira imagem que Frank Gehry teve ao idealizar o Guggenheim de Bilbao foi a de um barco encalhado nas margens do Nervión.
"Laguna ou Ria o que dela primeiramente nos interessa é aquele mar de água e aquelas vistas. Não há aí coração que não arribe, que não trejubile ante aquela paisagem grande e multicolor, a agitação crescente de vida e mais vida. Eu tenho a paixão da Ria. Por vezes ela adormece à brisa, ela toda, a beijar-se de brisas, o moliço de belo verde a vertebrar na ondina, e aquelas ondinas de ria como olhos garços a brilharem de céu e luz, como fontinhas, abrindo-se para a carícia rude dos barcos e para me conduzirem a mim ciumento!..."
"No cais da ribeira, tortuoso canal vindo da ria, àquela hora da tarde ia uma azáfama doida. Nas margens amontoavam-se pilhas de junco, marés de moliço, adobos, tijolos, cascalho, pipas de vinho. Os barcos, de velas arreadas, ou estavam a ser descarregados ou dormiam encostados às margens, cisnes de papos erguidos. Alguns regressavam à ria, empurrados por longas varas fincadas nos ombros largos dos barqueiros, à falta de viragem propícia. Em cima dos carros, de calças arregaçadas ou de calções de estopa, os homens iam ajeitando as engaçadas de junco ou de moliço que as mulheres, em movimentos rítmicos, lhes atiravam para cima. O burburinho enorme, assobios, cantigas, pragas, risadas, perdia-se na amplidão da planície por onde serpenteava o canal até à toalha líquida que se estendia, na direcção do mar, sulcada de mil velas. À esquerda, a terra subia ligeiramente, em campos onde já apareciam vinhedos. Mais além, divisavam-se os contrafortes violáceos das serras. Quase junto aos arrozais, corria, arfando, uma locomotiva, um brinquedo de criança, visto dali. Morria o sol, à direita, sobre o mar, enquanto de todos os inúmeros canais, da ria e da própria terra, ia subindo, diáfano como um véu de noiva, o nevoeiro frio e transparente que os raios do sol a custo rasgavam."


Infelizmente não foi, nem uma festa da espuma nem uma qualquer brincadeira de putos com detergente..muito menos uma situação pontual.



Desenhado e construído por William Fife em 1928 para Sir William Berry que o mandou fazer mais por colecionismo e meio de promoção social do que por simples paixão pelos barcos. Entre 1928 e 1934, ano em que Berry o vendeu, o "Cambria" foi sendo penalizado nas regatas em que ia participando fruto de ratings e handicaps pouco claros mas que por mera casualidade iam favorecendo o iate real "Britannia" e o círculo dos mais chegados ao Rei George v.
Domingo, passeio pela Murtosa e arredores, " o passeio dos tristes..", não sei quem terá sido o triste que teve a triste ideia de chamar tristes a quem faz tal passeio. Nem quero saber.


No passado dia 13 de Abril, Olin Stephens completou 100 anos. Um século de dedicação aos barcos á vela, pela prática da modalidade mas acima de tudo pelos desenhos que o tornaram no mais conhecido e bem sucedido designer do século xx.Enquanto andei por Pardilhó a acompanhar a construção do Almagrande, fui tirando fotografias sem outro intuito senão o de poder recordar a evolução da construção do barco. No entanto, algumas vezes passou por lá o meu amigo Quim Marques, competentíssimo proa da embarcação, munido da máquina de filmar. Fotos e filme andaram esquecidos durante uns meses, até que, durante um fim de semana do último inverno, possivelmente sem nada melhor para fazermos, ajudados por um terceiro elemento,o Moreira, crítico de cinema com elevada reputação no vale do Antuã e arredores, juntámos algumas das fotos e partes do filme em DVD. Ainda em produção, está no entanto quase pronto..foi um parto difícil. O meu obrigado ao Quim, o homem das máquinas e ao Moreira, o Bergman da "Praça do peixe". Aqui fica uma pequena amostra..
"A Ria estende-se em canais, em esteiros, em valas, em fiozinhos de água, dividindo-se e subdividindo-se até ao capilar, entrando pela terra dentro, recortando-a e irrigando-a de água salgada, ou, pelo menos, salobra, e que se vai adocicando à medida que foge do mar e se estende, por aí fora, a servir de espelho a uma lavoura anfíbia que lança a semente ao chão e penteia o fundo lodoso das cales, que surriba terra até sentir os pés encharcados e pesca pimpões nas valas intercalares nos fugidios tempos de lazer.
Adoro ouvir contar estórias, e de contar algumas que se passaram ou vão passando comigo.
"Amanheceu um sol de 2 de Julho de tão brilhante e cálido, o céu despejado, o mar como um lençol de aço reluzente cortado pelo orgulhoso Ita de altaneira proa.
"-Pai... -O som nem chegou a ser voz. «Pedir o quê? ... Não; não suplicaria uma recusa certa.» Com modos bruscos, falseados, chegou-se ao lume. A mãe entregou-lhe o caldo requentado e ele comeu. Depois, procurou o boné sem pala, atirou para as costas o saco dos aviamentos que o pai lhe estendera, e foi-lhe na cola, sem palavra.
" Distingo um fundo muito roxo - o recorte dos montes. Aqui a ria mais larga, aumenta ainda e divide-se, de um lado até Ovar, do outro até Salreu. E além, e além... casinhas num reprego da encosta, onde apetece viver, perdidas no mundo e esquecidas do mundo. Mesmo à beira de água e reflectida na água a Murtosa aureolada de oiro: algumas casas brancas reluzindo, algumas árvores muito verdes em contraste e um canalzinho de abrigo para os barcos estranhos, com o leme estrambólico atravessado por um pau. Aconchego e sol. A fantástica esquadrilha desdobra-se na água que estremece, menos em certos veios que ficam lisos de propósito para reflectirem os mastros num sarrabiobisco até ao fundo.
"Ninguém aqui vem que não fique seduzido, e noutro país esta região seria um lugar de vilegiatura privilegiado. É um sítio para contemplativos e poetas: qualquer fio de água lhes chega e os encanta. É um sítio para sonhadores e para os que gostam de se aventurar sobre quatro tábuas, descobrindo motivos imprevistos. É-o para os que se apaixonam pelo mar profundo e para os medrosos que só se arriscam num palmo d'água - porque a ria é lago e mar ao mesmo tempo. Com meios muito simples, um saleiro e uma barraca tem-se uma casa para todo o verão. Pesca-se. Sonha-se. Toma-se banho. E esquece-se a vida prática e mesquinha. Dorme-se ao largo, deitando-se a fateixa ou abica-se o areal: um fuguaréu, uma vara, a caldeirada...
"O rapaz voltou com as sardinhas e as iscas embrulhadas num jornal, e desceram até ao esquife, sentindo debaixo dos pés a areia com seixos, e pegaram no esquife e meteram-no no mar.


Construído em 1933 por Camper & Nicholson para W.L.Stevenson. Foi o único dos 10 J-class construídos de raíz a ser feito sem o intuito de participar na Taça América.Entre 1933 e 1936 participou e venceu inúmeras regatas em Inglaterra contra barcos como "Shamrock v", o iate real "Britannia" ou "Endeavour". Nos anos 90, jazia em Gosport, depois de algumas tentativas falhadas de recuperação por falta de verbas.Entre 1996/97 foi recuperado pelo actual proprietário sendo agora um dos que participam nas principais regatas de clássicos, fazendo recordar velhos duelos.