





Desenhado e construído por William Fife em 1928 para Sir William Berry que o mandou fazer mais por colecionismo e meio de promoção social do que por simples paixão pelos barcos. Entre 1928 e 1934, ano em que Berry o vendeu, o "Cambria" foi sendo penalizado nas regatas em que ia participando fruto de ratings e handicaps pouco claros mas que por mera casualidade iam favorecendo o iate real "Britannia" e o círculo dos mais chegados ao Rei George v.
Domingo, passeio pela Murtosa e arredores, " o passeio dos tristes..", não sei quem terá sido o triste que teve a triste ideia de chamar tristes a quem faz tal passeio. Nem quero saber.


No passado dia 13 de Abril, Olin Stephens completou 100 anos. Um século de dedicação aos barcos á vela, pela prática da modalidade mas acima de tudo pelos desenhos que o tornaram no mais conhecido e bem sucedido designer do século xx.Enquanto andei por Pardilhó a acompanhar a construção do Almagrande, fui tirando fotografias sem outro intuito senão o de poder recordar a evolução da construção do barco. No entanto, algumas vezes passou por lá o meu amigo Quim Marques, competentíssimo proa da embarcação, munido da máquina de filmar. Fotos e filme andaram esquecidos durante uns meses, até que, durante um fim de semana do último inverno, possivelmente sem nada melhor para fazermos, ajudados por um terceiro elemento,o Moreira, crítico de cinema com elevada reputação no vale do Antuã e arredores, juntámos algumas das fotos e partes do filme em DVD. Ainda em produção, está no entanto quase pronto..foi um parto difícil. O meu obrigado ao Quim, o homem das máquinas e ao Moreira, o Bergman da "Praça do peixe". Aqui fica uma pequena amostra..
"A Ria estende-se em canais, em esteiros, em valas, em fiozinhos de água, dividindo-se e subdividindo-se até ao capilar, entrando pela terra dentro, recortando-a e irrigando-a de água salgada, ou, pelo menos, salobra, e que se vai adocicando à medida que foge do mar e se estende, por aí fora, a servir de espelho a uma lavoura anfíbia que lança a semente ao chão e penteia o fundo lodoso das cales, que surriba terra até sentir os pés encharcados e pesca pimpões nas valas intercalares nos fugidios tempos de lazer.
Adoro ouvir contar estórias, e de contar algumas que se passaram ou vão passando comigo.
"Amanheceu um sol de 2 de Julho de tão brilhante e cálido, o céu despejado, o mar como um lençol de aço reluzente cortado pelo orgulhoso Ita de altaneira proa.
"-Pai... -O som nem chegou a ser voz. «Pedir o quê? ... Não; não suplicaria uma recusa certa.» Com modos bruscos, falseados, chegou-se ao lume. A mãe entregou-lhe o caldo requentado e ele comeu. Depois, procurou o boné sem pala, atirou para as costas o saco dos aviamentos que o pai lhe estendera, e foi-lhe na cola, sem palavra.
" Distingo um fundo muito roxo - o recorte dos montes. Aqui a ria mais larga, aumenta ainda e divide-se, de um lado até Ovar, do outro até Salreu. E além, e além... casinhas num reprego da encosta, onde apetece viver, perdidas no mundo e esquecidas do mundo. Mesmo à beira de água e reflectida na água a Murtosa aureolada de oiro: algumas casas brancas reluzindo, algumas árvores muito verdes em contraste e um canalzinho de abrigo para os barcos estranhos, com o leme estrambólico atravessado por um pau. Aconchego e sol. A fantástica esquadrilha desdobra-se na água que estremece, menos em certos veios que ficam lisos de propósito para reflectirem os mastros num sarrabiobisco até ao fundo.
"Ninguém aqui vem que não fique seduzido, e noutro país esta região seria um lugar de vilegiatura privilegiado. É um sítio para contemplativos e poetas: qualquer fio de água lhes chega e os encanta. É um sítio para sonhadores e para os que gostam de se aventurar sobre quatro tábuas, descobrindo motivos imprevistos. É-o para os que se apaixonam pelo mar profundo e para os medrosos que só se arriscam num palmo d'água - porque a ria é lago e mar ao mesmo tempo. Com meios muito simples, um saleiro e uma barraca tem-se uma casa para todo o verão. Pesca-se. Sonha-se. Toma-se banho. E esquece-se a vida prática e mesquinha. Dorme-se ao largo, deitando-se a fateixa ou abica-se o areal: um fuguaréu, uma vara, a caldeirada...
"O rapaz voltou com as sardinhas e as iscas embrulhadas num jornal, e desceram até ao esquife, sentindo debaixo dos pés a areia com seixos, e pegaram no esquife e meteram-no no mar.


Construído em 1933 por Camper & Nicholson para W.L.Stevenson. Foi o único dos 10 J-class construídos de raíz a ser feito sem o intuito de participar na Taça América.Entre 1933 e 1936 participou e venceu inúmeras regatas em Inglaterra contra barcos como "Shamrock v", o iate real "Britannia" ou "Endeavour". Nos anos 90, jazia em Gosport, depois de algumas tentativas falhadas de recuperação por falta de verbas.Entre 1996/97 foi recuperado pelo actual proprietário sendo agora um dos que participam nas principais regatas de clássicos, fazendo recordar velhos duelos.


" They tell me i have a beautiful boat.I don't want a beautiful boat.What i want is a boat to lift the cup - a Reliance. Give me a homely boat, the homeliest boat that was ever designed, if she is as fast as Reliance."
5.57h.-O cipreste, lá fora,quedo e mudo nem se mexe.Estava pr'aqui a ouvir umas modinhas brasileiras e não posso deixar de levantar o meu copo num brinde sentido e agradecido,ao grupo de amigos verdadeiramente intemporais,The boys from Ipanema.
"No frágil bote de pouco mais de dois metros, aquele solitário pescador, de pé, como dedo especado a apontar o infinito, Deus se possível, era a imagem de um condenado contra quem é cometido erro judiciário e, no derradeiro momento de seguir para a expiação sem culpa, inconformado, mas impotente, aponta silenciosamente na direcção do seu impávido juíz; mas também lembrava o poder de um soberano, senhor de um feudo, ao qual arrancava pela força dos braços, da experiência e da sorte, o sacio das bocas ávidas que lhe haviam ficado na pátria distante." (...)

"Eu nasci (...)ao que suponho na proa de alguma bateira,fui baptizado, à mesma hora, nas águas da nossa ria, abriram-se-me os ouvidos ao som cadencioso dos remos no mar, ao pio estrídulo das famintas gaivotas, ao praguejo inocente dos pescadores. Encheu-se-me o peito, à nascença,do ar salgado da maresia (...). Nós (...) somos feitos, dos pés à cabeça, de ria, de barcos, de remos, de velas, de montinhos de sal e areia, e até de naufrágios.Se nos abrissem o peito, encontrariam lá dentro um barquinho à vela (...). Assim (...), com os beiços a saber a salgado, a pingar gotas de ria por todo o corpo, por toda a alma,eu sou uma nesga, embora minúscula, desta deliciosa aguarela (...),eu sou um pedaço da nossa terra".